sábado, 23 de novembro de 2013

Então eu morri

Então eu morri. Uma bala de sabe-se lá qual calibre entre os meus olhos fez com que meus óculos voassem terra abaixo, metade para cada lado. Sorte ou azar, nenhum conhecido perto. Mas um grito de espanto teve. Feminino. E agora imagino como seria ridículo se um homem gritasse de espanto por um desconhecido tomar um tiro na testa. Um tiro vindo da puta-que-pariu. Mas foi um espanto sincero.
Uma oportunidade única e um estranho sentimento de poder por sobrevoar todos aqueles corpos fadados ao futuro que me acometeu, pois eles ainda estão com suas bombas-relógio ligadas tiquetaqueando sem parar impulsionando-os abismo abaixo na insanidade das questões acerca da existência. Algo que agora que está respondido, perdera completamente o sentido. Ou existe forma de morrer depois de morto?
Todo mundo precisa de um tempinho de solidão, faz bem. Mas quanto tempo eu ficaria observando o mundo inteiro me ignorar. Ou melhor, me ignorar involuntariamente, uma sutil diferença do estado de algumas candelas atrás. Até quando eu continuaria me surpreendendo e me decepcionando com pessoas que faziam parte da minha unha e carne. Até quando eu me veria surpreso por fazer falta a alguém que eu só bomdiava e me sentir triste por aqueles que eu esperava fazer felizes? Seria o fim dessas importâncias o último taque da segunda bomba-relógio?
Sentimentos não tem final e nem limites, não são medidos nem controlados, mas parecem energia que absorvemos, moldamos, canalizamos, transformamos e o mundo transforma de volta e assim por diante. Ou algo mais ou menos assim.

Pois é, querido diário, agora preciso ir, essa minha formidável imaginação me diz que, nesse universo esquizocriado, é hora de acordar e rotinar mais um pouco até voltar pra eternidade. Eternidade que vai durar até o último pensamento que me inclua desaparecer.

sábado, 16 de novembro de 2013

De Volta

Caminhar lentamente sobre um tapete de brasas sem demonstrar dor, ter o olho esquerdo retirado sem que nenhuma habilidade de cura seja usada em mim, nadar rapidamente através de uma corrente de bolhas ou algo do tipo, foi isso que me fez voltar.
Perder o medo não seria bem o mais apropriado a se dizer, mas enfim, adquirir coragem o suficiente para enfrentar cada um dos meus medos. Estar disposto às mais novas frustrações, decepções, tristezas e dores, afinal, é um preço mais que justo pela construção da felicidade, a construção dessa atividade da alma chamada de felicidade.
Depois de um longo período hibernando, consigo sentir que estou de volta. Não mais forte, mas mais disposto, até mesmo nos piores dias. Disposto a muitas coisas das quais eu havia me privado por pura comodidade.  Disposto a ouvir mais, sentir mais, pensar mais, aprender cada vez mais, e cada aprendizado, cada pensamento, sentimento ou coisa que ouço reflete em tudo o mais, formando um ciclo infinito. Me aprimorando.
Nada disso seria possível se ao menos eu não tivesse encontrado em mim mesmo a fonte de motivação, e isso só ocorreu devido às mais honrosas fontes externas, portanto, sempre quando minha motivação está se exaurindo eu lembro que preciso continuar por respeito a elas. Eu preciso pensar assim. Ser o melhor de mim a cada dia é o mínimo que eu posso fazer para valorizar. Sentir o fogo queimando nos olhos enquanto se supera e sofrer os efeitos da superação com orgulho.
Hoje choveu. Não foi muito forte, mas não foram as gotas geladas que me fizeram tomar essa decisão, foi o símbolo de se superar ante as forças da natureza, ouvir que o mundo se importa comigo e está me ajudando a superar minhas dificuldades. Compreender que no fim das contas somos todos uma coisa só, e minhas limitações devem ser eliminadas pelo seu próprio criador.
Esse ritual de passagem está me dando uma energia extra que eu realmente não esperava receber, e veio em uma excelente hora.

Eu não apenas estou de volta, mas me sinto assim, de volta.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Qual vida vale mais?

Mais uma vez, este mero mortal destituído de qualquer dom extraordinário que voz fala, ou seja, eu, me proponho a falar do “assunto do momento” daquele meu jeito. Não pretendo mudar o mundo com nada do que escrevo, mas se pelo menos eu colocar uma pulguinha atrás da orelha de alguém que se proponha a pensar de maneira crítica sobre qualquer assunto eu já me sinto um pouco mais feliz.
Sem mais delongas, aí vão algumas perguntinhas capciosas: Quanto vale uma vida? Uma vida vale mais do que outra? O que pode ser considerada uma vida?
Vocês já devem estar imaginando o motivo dessas perguntas né. Ok, é isso mesmo. Vendo o grande mural azul onde todos são intelectuais, sinceros e felizes, acabei tendo acesso, através de uma espécie de “telefone sem fio” moderno, a uma notícia onde em uma heroica invasão a um laboratório, diversos cãezinhos foram salvos das mãos inescrupulosas de pesquisadores de produtos farmacêuticos e/ou estéticos.
O momento seguinte foi aquele onde sempre duas forças rivais e recheadas de criticidade se enfrentam com “walltexts” repletos de conhecimento, lógica, empatia e totalmente destituídos de subjetividade. Tal como vocês já devem ter visto entre BBB, religião, estilos musicais, bandeira de cartão de crédito, marca de sandália...enfim.
O problema, é que existe a mania de pensar as coisas no limite. Porque é aceitável pisar em uma barata e condenável arremessar gatinhos no muro? Pink e Cérebro apertando botões pra tomar choque ou ganhar pedacinhos de queijo soa até engraçado, mas os cachorrinhos devem ser salvos porque os coitadinhos sofrem com aquele monte de química no corpo.
Talvez essas questões não queiram apenas criticar uma ou outra “vertente”, mas tentar explicar porque pensamos assim. Sabe aquela mania de pensar no limite?

Então, imagenzinhas de galhofa as vezes me fazem pensar de uma forma que até me envergonho, mas... as plantas são seres vivos também não são? Bactérias.... Logo, se somos vegetarianos e/ou tomamos antibióticos estamos matando o tempo todo só pra satisfazer as necessidades da nossa vida. Porque minha vida vale mais que a da planta ou da bactéria? (Chuva de respostas potenciais) Se você respondeu, de qualquer forma que seja a essa pergunta, pense nessa resposta de forma mais ampla e repare se o sentido dela não enfraquece?
No fim das contas, uma verdade científica está tão vulnerável e a mercê da aceitação do vulgo como um determinado programa de televisão, uma religião ou um estilo musical.
Diversos artistas e pesquisadores antigos teriam virado churrasquinho (e alguns viraram) em praça pública caso tivessem os pego dissecando cadáveres. Porque era errado... depois passou a ser certo, e depois errado de novo, e certo de novo (e agora não sei mais). E assim foi com uma infinidade de métodos que a história pode mostrar com muito mais propriedade que um mero gafanhoto. Os fins justificam os meios já foi a coisa mais linda a ser ouvida num pronunciamento, e hoje é motivo de vergonha, mas talvez amanhã seja orgulho novamente.
Todo esse senso crítico, essa vontade de fazer acontecer, bem como essa carência de atenção e em alguns casos, intolerância intelectual foi construída. Se voluntariamente ou involuntariamente eu sinceramente não sei quem poderia dizer com propriedade. A subjetividade de cada um envolve, além das experiências de vida particulares, retalhos da subjetividade do mundo todo, e isso é reflexo tão somente da facilidade de comunicação. Obviamente trouxe muitos avanços e coisas boas, mas aquela história de cegar com excesso de informação é tão claro que chega a ser cômico.
Por fim, eu, na minha posição de conhecedor de coisa nenhuma, preferiria mil vezes que fossem feitos os testes de substâncias e carambolhada a quatro, em seres humanos mesmo. Me parece mais confiável experimentar coisas para humanos em humanos, sem contar que o envolvimento com reclusos me agradaria ainda mais. (Mas isso desencadearia ooooooutro assunto e isso aqui já ficou grande demais).

O mundo todo, no limite, está inteiro ligado. Não há o que divida a parede da minha casa com a minha mão, e o outro lado dela com o ar e o ar com as demais coisas e as pessoas umas às outras, e os animais, os laboratórios, os remédios, tudo, e talvez o que esteja acontecendo seja apenas a vontade (com “v” minúsculo) se mostrando sem se dar conta da Vontade (com “V” maiúsculo) do tio Schop.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Um Dia Qualquer

Acordar num dia estranho sem saber porque. É físico? É mental? É psicológico? Sei lá, só pareceu estranho. Com muito custo levantar e voltar a dormir. Porque, se nem sono havia mais? O tempo passa mais um pouco e as metas não passam da metade. Ainda assim, ocorre a luta para atingi-las. “Esse era o máximo para hoje”. Mas não chega a ser satisfação.
O dia continua estranho, um reflexo de tudo. Sem motivos para alegrias, sem razão para tristezas. A motivação parecendo longínqua, os raios de sol sapecando a pele e as raras gotas d’água se chocando como balas no rosto. Uma manhã deveras curta de intermináveis horas.
Repousar alguns instantes ao som das seletas melodias. Tocantes. Daquelas cujos primeiros acordes já nos dizem toda a história, e a cada verso uma nova forma de ser contada, envolvidas em novas emoções, sons capazes de te fazer respirar fundo e soltar o ar de forma que ele leva para bem longe todas as estranhezas de um dia qualquer. As mesmas músicas em novas ordens parecem novas músicas. E assim por diante.
A tarde parecia diferente, sem estranhezas. Não havia nada de ruim, mesmo que também não houvesse nada de bom. A forma de perceber o momento havia mudado devido à experiência com as notas. E as memórias fizeram seu papel fabuloso, aliada à imaginação que parecia aguardar há muito uma oportunidade.
Um esforço e uma crença, veio a recompensa quando menos se esperava e esqueceu de pedir. Com tranquilidade e a mente voando pensando nas formas que há de crescer, quão boa e quão feia, quão ruim e quão bela, pode a chuva parecer, pois por mais que se cresça se a natureza quiser que você volte a experimentar e se nada der certo e tudo acabar a água da chuva ainda pode se mostrar como um espetáculo, uma peça fabulosa, única e especial, que ninguém vai cobrar.
Emoções ímpares nas tramas de jogos, verdadeiras surpresas nas atuações, sentidos sem nome despertados por gestos e muitos com nomes vindos de canções. Coisas sem explicação sendo maravilhosas, e maravilhas expostas por explicação, beleza nas cores e formas postadas em telas, paredes ou lascas de chão.

Um gostar poluído de superestima ou uma mera rima que fale de amor. Mas um amor sincero discreto de alarde, que fale de arte e de coração, que fale de força e de velocidade e a felicidade do agudo e do grave perdido num canto da humanidade chamado de amor pela arte, ou a arte de amar.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Quatro

Eu
Que jazi no pântano dos sonhos
Mantenho-me encarcerado neste invólucro de carne
Imerso no tempestuoso palco dos horrores
Emoções perdidas
Digladiando-se em emaranhadas “dístopes”  cadeias
“Cavalgantes” dos cavaleiros do ego
Se perdem guiados pelos faunos
Distraindo-se em suas teias
Garoto quatro
Recorrente em vários dos amores
Único e perfeito em qualquer dos horizontes
Jazido, no pântano dos sonhos

Sem câmera ou ação.

sábado, 31 de agosto de 2013

A lótus negra do reino dos elfos

            Algumas memórias confusas apenas. Dor, sofrimento e um fervor pulsante de sobrevivência. Fome, frio, cansaço. Cada dia parecia tão longo como a idade do mundo, e cada novo dia parecia mais longo que o anterior. Cada segundo um desafio maior que o outro. Um desafio dentro de outro.
            Dias, semanas, meses, anos. Cada segundo rastejando até a próxima lesma que pudesse saciar a fome quase fatal. Rastejar suportando a dor das picadas de aranhas. A pele queimando à fúria das formigas. Por vezes, sem enxergar devido aos efeitos dos venenos. Por vezes sem sentir nem ouvir. O sentimento de morte implícito em cada lembrança. Morte a cada dia. Sem nascer de novo.
            Quando conseguiu tamanho o suficiente para conseguir se alimentar de algo que não fosse pequenos vermes, seu corpo aos poucos parava de emanar cheiro podre, e atrair animais mais perigosos. O inferno não havia terminado, não estava nem perto de começar.
            Se alimentando da carne de seus caçadores. Ainda vivos. Resistindo semanas com braços e pernas dilacerados por lobos e felinos. Aprendendo a caçá-los antes de ser caçado. Chegou à fase adulta. Enfermo. Devido ao seu desenvolvimento repleto de podridão, desenvolveu uma doença que mais parecia uma maldição. Uma febre incontrolável, capaz de queimar ao toque. Insuportável. Que de tempos em tempos o afligia. Sem avisar. Sem misericórdia.
            Uma lenda surgiu nos vilarejos próximos dizendo que um demônio vivia no interior daquelas cavernas, guardando tesouros, e não demorou para que aventureiros desavisados se embrenhassem na escuridão da caverna dele sendo minados pelas dificuldades, para ele, corriqueiras, como aranhas gigantes, buracos apertados, lâminas naturais venenosas nas paredes e armadilhas dos örghal. Chegavam até ele quase mortos, e o que podia ser feito o era. E assim, uma lenda foi construída passando a ganhar carne e nervos. Aventureiros que partiam e não retornavam deixando suas moedas na caverna, seus equipamentos, seu nome. O demônio da mão maldita, era chamado.
            Salek, um bravo e destemido cavaleiro decidiu, por si próprio, invadir a montanha e por um fim na história que ceifava diversas vidas dos vilarejos com a promessa de uma riqueza sem tamanho. Era realmente um cavaleiro impressionante e superou todos os desafios da caverna do demônio estando pronto para um embate, no fim. Embate que não ocorreu, porque o demônio sofria da febre, e Salek era bom o suficiente para não atacar o elfo negro sem motivos. Ele tentou ajudar o demônio, que não entendia sua língua, e com muito custo, depois da febre cessar, Salek saiu da caverna com o Drow, desmentindo a lenda para toda a população.
            Mas os habitantes do vilarejo queriam vingança. O Drow havia levado incontáveis vidas dos filhos de todo o vilarejo. Eles queria sua cabeça. E em pouco tempo, a cabeça do, outrora herói, Salek também.
            Ambos fugiram às pressas para o topo da antiga montanha do Demônio da mão maldita, e para a surpresa de ambos, um belo vilarejo existia obscurecido pela miasma da montanha. Mais tarde descobriram ser o vilarejo do Mestre Ryu Chin, um ancião tremendamente habilidoso numa arte marcial baseada na compreensão dos elementos que formam o mundo e na observação dos movimentos dos animais.
            No vilarejo de Ryu Chin, o demônio viveu até o fim dos dias de seu primeiro, e até então único amigo, Salek, aprendendo com o mestre suas habilidades e compreendendo a vida do herói renegado. Seu amigo humano, que conheceu aparentando ser seu irmão mais novo, e partiu parecendo ser seu avô.
            No vilarejo, o demônio aprendeu a falar, ler, escrever. Aprendeu sobre história, religião, disciplina, determinação, herbologia, astrologia, ética e comportamento. Com isso, passou a direcionar melhor seus mais confusos pensamentos, ao passo que se tornou um dos mais graduados discípulos de Ryu Chin.
            Segundo as palavras do próprio mestre, seu treinamento jamais terminaria, mas o que ele teria a aprender com o mestre havia acabado. O mestre disse que ele deveria partir e seguir a direção que seu coração mandasse. Antes de partir, Ryu Chin o nomeou, assim como os pais fazem com seus filhos. E essa cerimônia foi assistida por todo o vilarejo. O velho mestre Ryu Chin, cento e trinta anos depois da chegada do drow em sua vila, o nomeou como Kadvra, o nome da primeira lótus negra datada na história. A flor que nasceu nas bordas do vulcão e se alimentou das fagulhas de fogo que a ela sobravam e cresceu mais forte que qualquer outra flor.
            Kadvra, o demônio da mão maldita, partiu da vila de Ryu Chin jurando um dia voltar para passar seus últimos dias. Partiu sem deixar nada pra trás. Partiu levando a vila e o coração de Salek em seu próprio coração. Guiado pela energia e iluminado pelas estrelas, o sobrevivente, a lótus negra do reino dos elfos.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Rascunho

Saudade que não sei de que
Vontade que não sei explicar
Tristeza só por não saber
O que tenho estado a esperar

Semanas voando depressa
Dias passando devagar
Fecha os olhos, o dia cessa
A alma começa a voar

Mesmo que não haja melhor alma no mundo que mereça você
Ainda que o fim dos tempos esteja fadado a lhe reconhecer
Calafrios dos pés a espinha, mente, fogo que arde sem se ver
Todas as questões do mundo jamais poderão explicar uma só
Por que?

Distância há muito invertida
Confusão preço e valor
A festa que foi divertida
Ontem mesmo se desmoronou

Juntando os restos e migalhas
diamante, semente e flor
fogo, feno, luz e palha
fome, orgulho e amor.

Mesmo que não haja alma alguma no mundo que mereça você
Ainda que o fim do mundo esteja fadado a desaparecer
Calafrios dos pés a espinha, mente, fogo que arde sem se ver

Resposta alguma no mundo seria capaz de responder, porque.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Vinte e sete de Agosto

Muitas coisas na vida podem ser definidas em fração de segundos. Alguma decisão importante, uma resposta na hora certa, um receio diante de alguma oportunidade. Num primeiro momento isso pode até parecer correto, mas seria um pensamento ingênuo acreditar piamente que tais ocasiões tiveram seu fim unicamente decididos por uma fração de segundos.
O que é um fato se não uma consequência de outros fatos? E estes, consequências de outros fatos ainda?
Pensando por este lado, seria correto afirmar que só existe uma possibilidade de as coisas acontecerem, uma vez que nós só podemos experimentar um único desfecho para a história? Ou então, uma vez que, por vezes, imaginamos diversos desfechos para a mesma história, existe, de fato, diversos desfechos e apenas um ocorre? Ou ainda, existem diversos desfechos para uma mesma história e todos ocorrem simultaneamente, mas a “nossa possibilidade” de cada um desses desfechos só tem consciência do próprio desfecho?
Resta, talvez, a opção de nos elevarmos espiritualmente ao nível de divindade para esclarecer essa dúvida, uma vez que, enquanto seres mortais de capacidades espaços-temporais, sensíveis e cognitivas limitadas, não somos capazes de uma visão privilegiada externa às histórias para avaliar as possibilidades das possibilidades.
Mas talvez exista uma utilidade prática para tal digressão retórica em meio a tantos pensamentos úteis, como cifras, horas, metros e falsidades. Algo que possa nos levar a banalidades como amor, disciplina, companheirismo e respeito. Talvez pensando na forma mais simplificada da questão. Independente se há ou não diversos fins, se a história toma seu rumo em segundos decisivos ou não, o que se pode fazer a respeito? Uma boa preparação para amenizar os efeitos dessa fração de segundos? Um esclarecimento acerca da situação, preparando para o pós, independente do resultado? Uma redefinição constante de prioridades, afinal, talvez esse ramo da história não tenha tanta importância como todo o resto da trama? Um pouco de tudo com umas doses de bom senso?

Se alguém tiver alguma resposta, por mais simples ou complexa que for eu gostaria realmente de saber. Não escolher a sua escolha, mas saber, pois saber é muito importante...

sábado, 17 de agosto de 2013

Palavras de um Amigo

“Sabe aquele momento inesperado, que você começa ler alguma coisa escrita por alguém que você admira e ao longo desse processo, entre pontos em que você concorda e pontos em que você discorda, você acaba percebendo que qualquer ressalva vai fazer com que a beleza do que foi exposto perca sua originalidade. Mesmo com um chamado a opinar,  minha posição com relação a isso não poderia ser diferente. Não concordo com tudo, como já disse, mas refletir sobre o que está escrito aqui, sem preconceito e sem julgamento, só vai fazer com que você dê mais um passo, um importante passo na direção do aperfeiçoamento pessoal. Essa é a minha humilde dica, e a seguir, minha singela homenagem a um amigo, as próprias palavras:”


É impressionante como a falta de informação pode fazer de um indivíduo um um objeto facilmente movido, tal como uma folha seca arrastada pelo vento. As pessoas, corriqueiramente, dizem o que o outro diz, sem levar em conta a veracidade da informação que está defendendo ou abordando. Como poderá uma pessoa ironizar ou ridicularizar uma outra pessoa ou situação, se a mesma não obteve o conhecimento da realidade dos fatos.

Daí parte a minha singela opinião de que existem seres dotados de nenhuma inteligência aparente e opinião própria, indivíduos apegados a meros estereótipos, sujeitos desprovidos totalmente de qualquer vestígio de originalidade. Coisas que eu aprendi a não gostar, definitivamente, ardentemente. Há também uma pré-disposição ao ataque as idéias que possivelmente serão desaprovadas pelas maiorias, ou aprovadas pelas minorias. Eu diria que os fracos se imaginam fortes quando acompanhados por uma multidão de fracassados.

Fracos. Não por acaso. Mas por não terem as suas metodologias baseadas nos seus princípios, entretanto, baseadas em comportamentos alheios; comportamentos esses que, em grandes proporções mostram-se um tanto quanto medíocres. É necessário salientar que, isso também é transitório, pois, é bem verdade que conhecemos o outro lado da moeda, onde as minorias são também favorecidas, merecidamente ou não.

Não sou a favor de títulos. Pra mim maneiras intrínsecas, ou seja, essenciais de pensamento e auto-crítica são extremamente válidas, relevantes. Sabiamente inerentes. 

Lucas Alves Soledade

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Quebrou

Sinto a suave maciez da minha coberta, mantendo-me aquecido nessa deliciosamente fria manhã enquanto dou mais uma volta em torno do próprio corpo na frustrada tentativa de retomar o sonho maravilhoso que estava tendo.
O despertar não vem, mas de algum modo, me dou conta de que é chegada a hora e começo os ritos naturais de preparação para levantar. Retirar de cima de mim aquela segunda pele tão perfeitamente aquecida por pouco mais de seis horas e sentir a mesclada sensação de prazer e incômodo do frio tocando meu corpo.
Mas antes disso esfrego os olhos ainda fechados. As memórias do sonho ainda não se foram completamente e este instante é tão fantástico, pois consegue misturar as sensações de antes de dormir, dos sonhos e do despertar como se tudo fizesse parte de uma mesma realidade, sem distinguir. Aperímetro. Talvez este momento seja o único momento da vida em que consiga sentir, de fato, como é o mundo.
Dobro a perna esquerda fazendo com que meu joelho quase chegue no peito, para pisar primeiro com o pé direito, afinal, acordar com o pé esquerdo dá azar. Começo tatear o móvel ao lado à procura do aparelho, em vão, pois ele não está lá. Consigo vencer e preguiça e abro os olhos. Diversos pedaços esparramados pelo chão. Um sorriso sincero acompanha os braços à captura dos estilhaços, que aos poucos vão formando o aparelho procurado. Pleno, e funcionando.
Água, café, mais água, pano, pano, e mais pano, agora mais água.
Pé ante pé o reflexo do aparelho em tamanho maior. Pleno e funcionando.
Ao longo do dia, a explicação, uma demonstração detalhada sobre o que pode haver com um aparelho deixado em segurança sobre um móvel para que amanheça aos pedaços no chão.

É chegada a noite. A noite do aparelho. A manhã da alma. Hora de juntar os pedaços e estar logo preparado. Pleno, e funcionando.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Uma pessoa

Imaginem que legal se de vez em quando você vivesse num lugar onde as pessoas são legais umas com as outras. Sem forçar, sem se policiar, simplesmente porque essas pessoas quiseram fazer alguma gentileza a um desconhecido. Nada além de cumprimentos e pequenos gestos. Um "lugar" numa fila que nunca existiu. Um braço estendido segurando uma porta que ia se fechar. Um objeto que havia caído no chão, agora entregue. Alguma dessas coisas seguidas de um sorriso, não um sorriso escandaloso e exagerado, um sorriso discreto, do tamanho da sinceridade.
Uma pessoa que vive dois minutos disso por dia, pode dizer que experimentou um pedaço do paraíso. E na esmagadora maioria das vezes, só depende de uma pessoa para que isso aconteça. Alguma sugestão?

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A Canção dos Heróis


Em tempos de guerra à espera de heróis
que enfrentam perigos e lutam por nós
Salvando princesas, matando dragões
levando coragem em seus corações

De armadura brilhante e martelo na mão
na eterna busca de honrar seu irmão
Conquistando aos poucos sua honra também
o legado do cavaleiro do bem

Da mata veio treinado pelos pais
seu maior poder provém dos animais
Cuja fonte sem fim é a natureza
que além de força o empresta beleza

Em tempos de guerra à espera de heróis
que enfrentam perigos e lutam por nós
Salvando princesas, matando dragões
levando coragem em seus corações

Na espada um demônio e à cavalo ele vem
couro e pelo verde e só um olho ele tem
De Olho de Grummsh costumam chamar
o pior pesadelo que possa encontrar

Das terras do norte no reino campestre
vem em caravana o pequeno mestre
Moldando as sombras como em seus sonhos
ilude pessoas, bestas e demônios

Em tempos de guerra à espera de heróis
que enfrentam perigos e lutam por nós
Salvando princesas, matando dragões
levando coragem em seus corações

Caçador de dragões de alma e de sangue
persegue em cavernas, no mar ou no mangue
Filho de uma lenda carregando a herança
de açõ e de morte em busca de vingança

Cantando essa história talvez muito mal
sou eu, bardo, gordo, elfo e imortal
das matas distantes e fruto de incesto
Podem me chamar de Erick "o sexto"!

Em tempos de guerra à espera de heróis
que enfrentam perigos e lutam por nós
Salvando princesas, matando dragões
levando coragem em seus corações

No meio da guerra vilões e heróis
travando infinitas batalhas a sós
Pilhando cidades, montando dragões
fazendo seus nomes entrar nas canções

Em tempos de guerra à espera de heróis
que enfrentam perigos e lutam por nós
Salvando princesas, matando dragões
levando coragem em seus corações

Fazendo seus nomes entrar nas canções.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

For Sale

Dormir
É o que tenho a fazer depois de ir
Conferir
E quem sabe até sentir

Seis palavras dolorosas
Lindas histórias amorosas
Sem rosas
No fim, desastrosas

Acaba-se o encanto
No entanto
Quando do choro cessa o pranto

Me levanto

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Um pouco mais sobre mim

É bem verdade que, muito embora nunca tenha escrito descaradamente a meu respeito, cada vírgula das coisas postadas nesse blog carrega algo de mim e, portanto, é bem fácil me conhecer através disso, seja em um prelúdio de um personagem que eu tenha criado, seja em uma tentativa frustrada de poesia ou mesmo em um desabafo catalisado “etílicamente”. Em qualquer que fosse o caso, minha mão nunca consegue ficar de fora do que escrevo.
Agora vou tentar ser um pouquinho diferente, estou falando descaradamente de mim e da qualidade que eu tenho (ou achei que tivesse). A capacidade de aprender rápido.
Desde muito jovem, tudo o que eu me propunha a fazer eu conseguia fazer, e em pouquíssimo tempo eu conseguia não só fazer bem feito, mas inovar, e com o tempo aconteceu algo que eu considero bastante ruim. Eu comecei a subestimar a dificuldade das coisas. Bastava eu começar a fazer algo e assim que eu percebia que iria conseguir eu não só passava a achar fácil, mas perdia o interesse.
Diversos desafios foram apresentado a mim nesses quase trinta anos (exagerei nos “quase trinta”?), e poucos foram os que se mostraram realmente complexos a ponto de despertar meu interesse de modo que eu continuasse aprimorando até fazer o que eu fazia antes. Meio que sem perceber, eu havia deixado algumas coisas pra trás que só recentemente eu fui notar.
Dois novos, e bem específicos, desafios surgiram recentemente na minha vida e algo diferente aconteceu dessa vez. Pela primeira vez eu tive medo de não conseguir aprender rápido. Na verdade, era um pouco pior que isso, eu tive medo de não conseguir aprender levando o tempo que fosse. Adiei o início, procurei ajuda com amigos recentes (os velhos amigos me zoariam até a morte) e enfim, decidi encará-los mesmo assim. O resultado? Me deparei com uma dificuldade desproporcionalmente acima da média de tudo o que eu havia visto na minha vida em um deles, enquanto no outro, embora eu esteja me desempenhando relativamente bem, eu aprendi a olhar de uma outra forma para todos os meus desafios.
Essa capacidade de aprender rápido alguma coisa, talvez se devesse ao meu interesse em determinadas coisas, o que fazia com que eu buscasse por crescimento. Não se tratava propriamente de uma qualidade minha, era só determinação. Enquanto o fato de subestimar os desafios estava sendo meu maior defeito. Subestimar um desafio me dava preguiça de continuar aprimorando, me tirava o interesse, e isso se tornou a maior dificuldade que eu poderia ter.
Agora, com a consciência de que eu não sou nenhum “escolhido” e que eu tenho, na verdade, um terrível defeito, estou tentando enxergar novamente os desafios que deixei pra trás e as dificuldades que me fizeram desistir deles. Não estou dizendo que com isso vou retomar tudo o que comecei e abandonei no meio do caminho, mas redefinir minhas prioridades e dar o máximo de mim naquilo que eu perceber que realmente quero, sem medo e sem subestimar as dificuldades.
Atualmente tenho alguns desafios pela frente, em alguns acredito estar indo bem, em outros nem tanto, mas é a respeito dessa determinação que eu estou escrevendo, dessa determinação que surgiu com o esclarecimento, essa coisa bem pessoal, algo sobre superar um desafio pra poder encarar um desafio mais difícil.

No fim das contas, acho que sou mesmo infantil a ponto de me motivar para a vida com coisas correspondentes aos elementos do RPG. E eu tenho achado isso um máximo...

terça-feira, 23 de julho de 2013

Eu sou feito de Espadas

“Minhas memórias não são e nem nunca foram muito claras, mas lembro-me com certa clareza dos últimos momentos de meu pai. Seu corpo totalmente atravessado por armas. Espadas, lanças, forcados, todo tipo de arma que pudesse cortar ou perfurar o faziam em seu corpo. Pernas, braços, todo o peito e o abdômen atravessados por lâminas de todo o tipo e seu semblante era o de alguém orgulhoso, talvez pelos seus feitos, talvez pelos seus ensinamentos. Eu nunca irei saber ao certo.
I am the bone of my sword
Meu pai simboliza toda a minha família, e todo o contato que tive com ele pode ser resumido em treino. Décadas, ou até mesmo séculos de treino. Estudo das artes arcanas, disciplina, determinação, concentração, esforço físico e mental, tradição, técnica. Ele me mostrou todo o tipo de magia que pode existir no mundo, mas me ensinou a magia mais árdua. A magia de espadas. Ao preço de suor e sangue, eu deveria aprender a criar espadas instantaneamente. Armas sem orgulho, eu deveria criar armas que pudessem ser descartáveis, só deveria criar, com velocidade, com perfeição.
Stell is my body and the fire is my blood
Aprendi truques para alterar minha velocidade, algumas armadilhas mágicas, coisa que qualquer iniciado pode fazer, mas definitivamente, eu me aprimorei na arte de fazer armas. Espadas, lanças, correntes. Tudo se tornou fácil demais depois que o treino se tornou rotina.
I have created over a thousand blades
Mas o verdadeiro treinamento estava começando agora. Targrel me desafiava dia após dia, hora após hora, minuto após minuto, em combate, até que eu desmaiasse. Lutando, o tempo foi passando, e não conheci mais ninguém. Minha vida era lutar, dar o máximo de mim, criar cada vez mais lâminas em menos tempo. Resistir à morte, era esse o meu treinamento atual.
Unknown to death
Nor known to life
Com o passar do tempo parecendo cada vez menos real, perdi a noção dos anos, o
 que fez com que eu esquecesse também de minha idade, da idade da vila. Na verdade, esqueci de mim, esqueci da vila, esqueci de tudo, e todo esse vazio que foi crescendo dentro de mim eu transformava em armas. Não tinha mais motivos pelos quais lutar, não tinha mais motivos pelos quais querer nada a não ser me aprimorar na arte da luta e da criação espontânea de armas. Eu não era alguém com armas, eu havia me tornado uma arma.


Have withstood pain to create many weapons
Acertei o meu pai. Devo ter lhe feito algum corte superficial, quase invisível, mas o cortei. Eu vi o sangue na minha espada. Essa tinha sido a primeira vez, e antes que eu o golpeasse novamente ele me disse algumas palavras. Disse que eu estava pronto finalmente. Que eu deveria voltar a focar meu treinamento em disciplina e conhecimento, que eu deveria começar a exercitar a minha mente e começar a julgar pelo que eu deveria lutar. E por último me fez uma pergunta. Ele perguntou se eu seria capaz de abandonar todo o conhecimento que eu tinha e todo o treinamento pelo qual eu havia passado e eu lhe respondi prontamente que sim.
Com um largo sorriso no rosto ele me disse para largar tudo e ir viver na vila, como se jamais tivesse o conhecido. Me pediu para esquecer de tudo.
Yet, those hands will never hold anything
Sem céu e sem chão, pé ante pé fui até a vila. Não conseguia sentir sequer tristeza, pois havia esquecido dos meus sentimentos durante os anos que se passavam. Se um dia eu treinei disciplina, foi para conseguir fazer o que havia me pedido. Esquecer de tudo. E assim o fiz, pois durou tanto tempo que não faço ideia do tempo que passou desde que parti para a vila de novo.
Mas numa certa manhã, a vila amanhece alvoroçada, em choque. Targrel estava ajoelhado no centro da praça, da forma como me lembro dele até hoje, com o semblante orgulhoso, e infinitas armas atravessando-lhe.
So as I pray

Para mim, esta foi a última lição, pois agora eu tenho o conhecimento, a técnica, a disciplina, a concentração, a velocidade, sei julgar pelo que lutar e sei o que eu sou. Eu sou feito de espadas.”

Inspirado descaradamente no personagem "Archer" (Emiya Shirou heróico) do anime Fate.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O Guardião de Nortland


- Pai – puxando a roupa do pai tentando chamar a atenção, o pequeno garoto – pai, quem é aquele velho no topo da montanha?
- Aquele filho – largou um sorriso discreto – aquele é o nosso guardião, Alekeen Flamton, o guardião dessas terras frias.
- O que faz um guardião, pai? Ele só fica ali parado o tempo todo, todo dia...
- Sabe filho – após sentar-se, colocou a criança sentada sobre sua perna – todas as noites, quando adormece após sua mãe beijar sua testa, este homem permanece de pé, no topo do monte, observando atentamente, e as raras vezes em que ele não está lá, é porque seu trabalho ficou ainda mais duro.
- Ah pai, mas não parece ser difícil ficar parado sem fazer nada.
- Mas não é fazendo nada que este homem fica, filho. Ele está sempre observando a cidade toda, está varrendo cada canto da cidade com seu olhar em busca de algo que possa trazer perigo a alguém.
- Pai, mas nunca vi qualquer sinal de perigo aqui! – fez cara de bravo e encarou seu pai.
Olhou sorridente para seu filho, então – Meu filho, então é a aquele homem que deve agradecer a cada dia, pois o mundo é repleto de perigos e pessoas más, e se nos seus cinco anos de vida você jamais viu perigo algum, este homem tem feito um excelente trabalho.
- Nossa pai, não tinha pensado assim. – voltou a olhar o homem de trajes avermelhados no topo da montanha coberta de neve – todo mundo agradece a ele por isso?
- Infelizmente não, meu filho – abaixou a cabeça – porque ele já falhou antes... – voltou a olhar para o menino - ...e as pessoas só não esquecem as falhas.
- Como ele falhou? – olhou intrigado para seu pai.
- Não tinha a ver com ele, tinha a ver com todos, mas decidiram pôr sobre ele a responsabilidade.
- É uma história pai?
- Sempre é, meu filho, sempre é...
Desceu da perna de seu pai e sentou-se no chão a frente, esperando a história ser contada.
- Já faz muito tempo, ele era jovem e estava apenas treinando para ser o novo guardião pois o antigo estava velho. – virou a cabeça para a esquerda e apontou para a grande fonte – Vê aquela fonte?
- De onde todo mundo pega água?
- Sim, exatamente. – abaixou os braços e olhou para o menino – Sabe porque todos pegam água de lá?
- Porque é só lá que tem. O resto fica congelado por causa do frio.
- Isso mesmo – mostrou um largo semblante orgulhoso – Continuando a história, na época em que Alekeen estava em treinamento, soldados das terras quentes vieram procurando por um artefato e encasquetaram que estava na fonte. Eles tentaram quebrar a fonte. O guardião tentou os impedir. O velho guardião morreu tentando. Alekeen quase morreu tentando impedir também e a fonte foi quebrada. Os soldados foram embora com algo da fonte, e tempo depois, mesmo com a fonte consertada, a água dela ficava congelada como em qualquer outro lugar.
- Mas hoje ela solta água pai – interrompeu, a criança.
- Sim, filho, mas isso demorou muito tempo. Alekeen, o jovem guardião de treinamento incompleto foi designado a trazer de volta a “chama da fonte”, como chamaram, antes que o povo perecesse.
- E quando ele fracassou, se a fonte tá funcionando normal?
- Ele não conseguiu trazê-la a tempo. Quase todos morreram e não havia nem notícia dele. Os sobreviventes migraram para as terras quentes mais próximas e se entregaram à servidão. O povo sentiu-se humilhado. As histórias foram sendo passadas para as gerações até que um dia, muito tempo depois de várias gerações terem sucumbido, Alekeen veio avisar que a “chama da fonte” estava de volta nela e que o povo da neve poderia retornar à sua cidade. Poucos acreditaram e o seguiram, e aos poucos todos retornaram. Por diversas vezes, legiões de soldados das terras quentes retornaram a Nortland a fim de surrupiar a “chama da fonte”, mas Alekeen não era mais um guardião de treinamento incompleto. Alekeen não era sequer mortal. Entregou-se às chamas de corpo e alma e sua lealdade à sua função o preservou vivo. Sua idade soma agora mais de mil vidas. Ele não dorme, ele não come, ele não cansa. Raras vezes fala. Ele é agora, o guardião de Nortland.
- Nossa pai, que história bonita – virou o rosto ao velho no topo do monte – será que um dia posso me tornar um guardião também?
- Filho, ninguém reconhece o valor de um guardião, todos pensam assim como você pensava, que ele não faz nada...
- É pai, mas agora eu sei o que ele faz, e eu quero fazer também, mesmo que a gente não mereça. – olhou para o pai com os olhos cheios d’água – me conta como foi que ele conseguiu...
- Ah, meu filho, essa sim é uma história longa – sentou-se no chão esticando as pernas, tossiu duas vezes e pôs-se a falar – Imagine, filho, um jovem de dezessete anos, que nunca havia saído de Nortland, partir sozinho atrás de algo que sequer sabe o que é, que possivelmente estaria nas mãos de um exército. Bem, foi assim que começou...