segunda-feira, 15 de julho de 2013

O Guardião de Nortland


- Pai – puxando a roupa do pai tentando chamar a atenção, o pequeno garoto – pai, quem é aquele velho no topo da montanha?
- Aquele filho – largou um sorriso discreto – aquele é o nosso guardião, Alekeen Flamton, o guardião dessas terras frias.
- O que faz um guardião, pai? Ele só fica ali parado o tempo todo, todo dia...
- Sabe filho – após sentar-se, colocou a criança sentada sobre sua perna – todas as noites, quando adormece após sua mãe beijar sua testa, este homem permanece de pé, no topo do monte, observando atentamente, e as raras vezes em que ele não está lá, é porque seu trabalho ficou ainda mais duro.
- Ah pai, mas não parece ser difícil ficar parado sem fazer nada.
- Mas não é fazendo nada que este homem fica, filho. Ele está sempre observando a cidade toda, está varrendo cada canto da cidade com seu olhar em busca de algo que possa trazer perigo a alguém.
- Pai, mas nunca vi qualquer sinal de perigo aqui! – fez cara de bravo e encarou seu pai.
Olhou sorridente para seu filho, então – Meu filho, então é a aquele homem que deve agradecer a cada dia, pois o mundo é repleto de perigos e pessoas más, e se nos seus cinco anos de vida você jamais viu perigo algum, este homem tem feito um excelente trabalho.
- Nossa pai, não tinha pensado assim. – voltou a olhar o homem de trajes avermelhados no topo da montanha coberta de neve – todo mundo agradece a ele por isso?
- Infelizmente não, meu filho – abaixou a cabeça – porque ele já falhou antes... – voltou a olhar para o menino - ...e as pessoas só não esquecem as falhas.
- Como ele falhou? – olhou intrigado para seu pai.
- Não tinha a ver com ele, tinha a ver com todos, mas decidiram pôr sobre ele a responsabilidade.
- É uma história pai?
- Sempre é, meu filho, sempre é...
Desceu da perna de seu pai e sentou-se no chão a frente, esperando a história ser contada.
- Já faz muito tempo, ele era jovem e estava apenas treinando para ser o novo guardião pois o antigo estava velho. – virou a cabeça para a esquerda e apontou para a grande fonte – Vê aquela fonte?
- De onde todo mundo pega água?
- Sim, exatamente. – abaixou os braços e olhou para o menino – Sabe porque todos pegam água de lá?
- Porque é só lá que tem. O resto fica congelado por causa do frio.
- Isso mesmo – mostrou um largo semblante orgulhoso – Continuando a história, na época em que Alekeen estava em treinamento, soldados das terras quentes vieram procurando por um artefato e encasquetaram que estava na fonte. Eles tentaram quebrar a fonte. O guardião tentou os impedir. O velho guardião morreu tentando. Alekeen quase morreu tentando impedir também e a fonte foi quebrada. Os soldados foram embora com algo da fonte, e tempo depois, mesmo com a fonte consertada, a água dela ficava congelada como em qualquer outro lugar.
- Mas hoje ela solta água pai – interrompeu, a criança.
- Sim, filho, mas isso demorou muito tempo. Alekeen, o jovem guardião de treinamento incompleto foi designado a trazer de volta a “chama da fonte”, como chamaram, antes que o povo perecesse.
- E quando ele fracassou, se a fonte tá funcionando normal?
- Ele não conseguiu trazê-la a tempo. Quase todos morreram e não havia nem notícia dele. Os sobreviventes migraram para as terras quentes mais próximas e se entregaram à servidão. O povo sentiu-se humilhado. As histórias foram sendo passadas para as gerações até que um dia, muito tempo depois de várias gerações terem sucumbido, Alekeen veio avisar que a “chama da fonte” estava de volta nela e que o povo da neve poderia retornar à sua cidade. Poucos acreditaram e o seguiram, e aos poucos todos retornaram. Por diversas vezes, legiões de soldados das terras quentes retornaram a Nortland a fim de surrupiar a “chama da fonte”, mas Alekeen não era mais um guardião de treinamento incompleto. Alekeen não era sequer mortal. Entregou-se às chamas de corpo e alma e sua lealdade à sua função o preservou vivo. Sua idade soma agora mais de mil vidas. Ele não dorme, ele não come, ele não cansa. Raras vezes fala. Ele é agora, o guardião de Nortland.
- Nossa pai, que história bonita – virou o rosto ao velho no topo do monte – será que um dia posso me tornar um guardião também?
- Filho, ninguém reconhece o valor de um guardião, todos pensam assim como você pensava, que ele não faz nada...
- É pai, mas agora eu sei o que ele faz, e eu quero fazer também, mesmo que a gente não mereça. – olhou para o pai com os olhos cheios d’água – me conta como foi que ele conseguiu...
- Ah, meu filho, essa sim é uma história longa – sentou-se no chão esticando as pernas, tossiu duas vezes e pôs-se a falar – Imagine, filho, um jovem de dezessete anos, que nunca havia saído de Nortland, partir sozinho atrás de algo que sequer sabe o que é, que possivelmente estaria nas mãos de um exército. Bem, foi assim que começou...

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