- Pai – puxando a roupa do
pai tentando chamar a atenção, o pequeno garoto – pai, quem é aquele velho no
topo da montanha?
- Aquele filho – largou um
sorriso discreto – aquele é o nosso guardião, Alekeen Flamton, o guardião
dessas terras frias.
- O que faz um guardião,
pai? Ele só fica ali parado o tempo todo, todo dia...
- Sabe filho – após
sentar-se, colocou a criança sentada sobre sua perna – todas as noites, quando
adormece após sua mãe beijar sua testa, este homem permanece de pé, no topo do
monte, observando atentamente, e as raras vezes em que ele não está lá, é
porque seu trabalho ficou ainda mais duro.
- Ah pai, mas não parece
ser difícil ficar parado sem fazer nada.
- Mas não é fazendo nada
que este homem fica, filho. Ele está sempre observando a cidade toda, está
varrendo cada canto da cidade com seu olhar em busca de algo que possa trazer
perigo a alguém.
- Pai, mas nunca vi
qualquer sinal de perigo aqui! – fez cara de bravo e encarou seu pai.
Olhou sorridente para seu
filho, então – Meu filho, então é a aquele homem que deve agradecer a cada dia,
pois o mundo é repleto de perigos e pessoas más, e se nos seus cinco anos de
vida você jamais viu perigo algum, este homem tem feito um excelente trabalho.
- Nossa pai, não tinha pensado
assim. – voltou a olhar o homem de trajes avermelhados no topo da montanha
coberta de neve – todo mundo agradece a ele por isso?
- Infelizmente não, meu
filho – abaixou a cabeça – porque ele já falhou antes... – voltou a olhar para
o menino - ...e as pessoas só não esquecem as falhas.
- Como ele falhou? – olhou
intrigado para seu pai.
- Não tinha a ver com ele,
tinha a ver com todos, mas decidiram pôr sobre ele a responsabilidade.
- É uma história pai?
- Sempre é, meu filho,
sempre é...
Desceu da perna de seu pai
e sentou-se no chão a frente, esperando a história ser contada.
- Já faz muito tempo, ele
era jovem e estava apenas treinando para ser o novo guardião pois o antigo
estava velho. – virou a cabeça para a esquerda e apontou para a grande fonte –
Vê aquela fonte?
- De onde todo mundo pega
água?
- Sim, exatamente. –
abaixou os braços e olhou para o menino – Sabe porque todos pegam água de lá?
- Porque é só lá que tem.
O resto fica congelado por causa do frio.
- Isso mesmo – mostrou um
largo semblante orgulhoso – Continuando a história, na época em que Alekeen
estava em treinamento, soldados das terras quentes vieram procurando por um
artefato e encasquetaram que estava na fonte. Eles tentaram quebrar a fonte. O
guardião tentou os impedir. O velho guardião morreu tentando. Alekeen quase
morreu tentando impedir também e a fonte foi quebrada. Os soldados foram embora
com algo da fonte, e tempo depois, mesmo com a fonte consertada, a água dela
ficava congelada como em qualquer outro lugar.
- Mas hoje ela solta água
pai – interrompeu, a criança.
- Sim, filho, mas isso
demorou muito tempo. Alekeen, o jovem guardião de treinamento incompleto foi
designado a trazer de volta a “chama da fonte”, como chamaram, antes que o povo
perecesse.
- E quando ele fracassou,
se a fonte tá funcionando normal?
- Ele não conseguiu
trazê-la a tempo. Quase todos morreram e não havia nem notícia dele. Os
sobreviventes migraram para as terras quentes mais próximas e se entregaram à
servidão. O povo sentiu-se humilhado. As histórias foram sendo passadas para as
gerações até que um dia, muito tempo depois de várias gerações terem sucumbido,
Alekeen veio avisar que a “chama da fonte” estava de volta nela e que o povo da
neve poderia retornar à sua cidade. Poucos acreditaram e o seguiram, e aos
poucos todos retornaram. Por diversas vezes, legiões de soldados das terras
quentes retornaram a Nortland a fim de surrupiar a “chama da fonte”, mas
Alekeen não era mais um guardião de treinamento incompleto. Alekeen não era
sequer mortal. Entregou-se às chamas de corpo e alma e sua lealdade à sua
função o preservou vivo. Sua idade soma agora mais de mil vidas. Ele não dorme,
ele não come, ele não cansa. Raras vezes fala. Ele é agora, o guardião de
Nortland.
- Nossa pai, que história
bonita – virou o rosto ao velho no topo do monte – será que um dia posso me
tornar um guardião também?
- Filho, ninguém reconhece
o valor de um guardião, todos pensam assim como você pensava, que ele não faz
nada...
- É pai, mas agora eu sei
o que ele faz, e eu quero fazer também, mesmo que a gente não mereça. – olhou
para o pai com os olhos cheios d’água – me conta como foi que ele conseguiu...
- Ah, meu filho, essa sim
é uma história longa – sentou-se no chão esticando as pernas, tossiu duas vezes
e pôs-se a falar – Imagine, filho, um jovem de dezessete anos, que nunca havia
saído de Nortland, partir sozinho atrás de algo que sequer sabe o que é, que
possivelmente estaria nas mãos de um exército. Bem, foi assim que começou...

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