Então eu morri. Uma bala de sabe-se lá qual calibre entre
os meus olhos fez com que meus óculos voassem terra abaixo, metade para cada
lado. Sorte ou azar, nenhum conhecido perto. Mas um grito de espanto teve.
Feminino. E agora imagino como seria ridículo se um homem gritasse de espanto
por um desconhecido tomar um tiro na testa. Um tiro vindo da puta-que-pariu.
Mas foi um espanto sincero.
Uma oportunidade única e um estranho sentimento de poder
por sobrevoar todos aqueles corpos fadados ao futuro que me acometeu, pois eles
ainda estão com suas bombas-relógio ligadas tiquetaqueando sem parar
impulsionando-os abismo abaixo na insanidade das questões acerca da existência.
Algo que agora que está respondido, perdera completamente o sentido. Ou existe
forma de morrer depois de morto?
Todo mundo precisa de um tempinho de solidão, faz bem.
Mas quanto tempo eu ficaria observando o mundo inteiro me ignorar. Ou melhor,
me ignorar involuntariamente, uma sutil diferença do estado de algumas candelas
atrás. Até quando eu continuaria me surpreendendo e me decepcionando com
pessoas que faziam parte da minha unha e carne. Até quando eu me veria surpreso
por fazer falta a alguém que eu só bomdiava e me sentir triste por aqueles que
eu esperava fazer felizes? Seria o fim dessas importâncias o último taque da
segunda bomba-relógio?
Sentimentos não tem final e nem limites, não são medidos
nem controlados, mas parecem energia que absorvemos, moldamos, canalizamos,
transformamos e o mundo transforma de volta e assim por diante. Ou algo mais ou
menos assim.
Pois é, querido diário, agora preciso ir, essa minha
formidável imaginação me diz que, nesse universo esquizocriado, é hora de
acordar e rotinar mais um pouco até voltar pra eternidade. Eternidade que vai
durar até o último pensamento que me inclua desaparecer.
Nenhum comentário:
Postar um comentário