Sinto a suave maciez da minha coberta, mantendo-me
aquecido nessa deliciosamente fria manhã enquanto dou mais uma volta em torno
do próprio corpo na frustrada tentativa de retomar o sonho maravilhoso que
estava tendo.
O despertar não vem, mas de algum modo, me dou conta de
que é chegada a hora e começo os ritos naturais de preparação para levantar.
Retirar de cima de mim aquela segunda pele tão perfeitamente aquecida por pouco
mais de seis horas e sentir a mesclada sensação de prazer e incômodo do frio
tocando meu corpo.
Mas antes disso esfrego os olhos ainda fechados. As
memórias do sonho ainda não se foram completamente e este instante é tão
fantástico, pois consegue misturar as sensações de antes de dormir, dos sonhos
e do despertar como se tudo fizesse parte de uma mesma realidade, sem
distinguir. Aperímetro. Talvez este momento seja o único momento da vida em que
consiga sentir, de fato, como é o mundo.
Dobro a perna esquerda fazendo com que meu joelho quase
chegue no peito, para pisar primeiro com o pé direito, afinal, acordar com o pé
esquerdo dá azar. Começo tatear o móvel ao lado à procura do aparelho, em vão,
pois ele não está lá. Consigo vencer e preguiça e abro os olhos. Diversos
pedaços esparramados pelo chão. Um sorriso sincero acompanha os braços à
captura dos estilhaços, que aos poucos vão formando o aparelho procurado.
Pleno, e funcionando.
Água, café, mais água, pano, pano, e mais pano, agora
mais água.
Pé ante pé o reflexo do aparelho em tamanho maior. Pleno
e funcionando.
Ao longo do dia, a explicação, uma demonstração detalhada
sobre o que pode haver com um aparelho deixado em segurança sobre um móvel para
que amanheça aos pedaços no chão.
É chegada a noite. A noite do aparelho. A manhã da alma.
Hora de juntar os pedaços e estar logo preparado. Pleno, e funcionando.
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