Algumas
memórias confusas apenas. Dor, sofrimento e um fervor pulsante de
sobrevivência. Fome, frio, cansaço. Cada dia parecia tão longo como a idade do
mundo, e cada novo dia parecia mais longo que o anterior. Cada segundo um
desafio maior que o outro. Um desafio dentro de outro.
Dias,
semanas, meses, anos. Cada segundo rastejando até a próxima lesma que pudesse
saciar a fome quase fatal. Rastejar suportando a dor das picadas de aranhas. A
pele queimando à fúria das formigas. Por vezes, sem enxergar devido aos efeitos
dos venenos. Por vezes sem sentir nem ouvir. O sentimento de morte implícito em
cada lembrança. Morte a cada dia. Sem nascer de novo.
Quando
conseguiu tamanho o suficiente para conseguir se alimentar de algo que não
fosse pequenos vermes, seu corpo aos poucos parava de emanar cheiro podre, e
atrair animais mais perigosos. O inferno não havia terminado, não estava nem
perto de começar.
Se
alimentando da carne de seus caçadores. Ainda vivos. Resistindo semanas com
braços e pernas dilacerados por lobos e felinos. Aprendendo a caçá-los antes de
ser caçado. Chegou à fase adulta. Enfermo. Devido ao seu desenvolvimento
repleto de podridão, desenvolveu uma doença que mais parecia uma maldição. Uma
febre incontrolável, capaz de queimar ao toque. Insuportável. Que de tempos em
tempos o afligia. Sem avisar. Sem misericórdia.
Uma
lenda surgiu nos vilarejos próximos dizendo que um demônio vivia no interior
daquelas cavernas, guardando tesouros, e não demorou para que aventureiros
desavisados se embrenhassem na escuridão da caverna dele sendo minados pelas
dificuldades, para ele, corriqueiras, como aranhas gigantes, buracos apertados,
lâminas naturais venenosas nas paredes e armadilhas dos örghal. Chegavam até ele quase
mortos, e o que podia ser feito o era. E assim, uma lenda foi construída
passando a ganhar carne e nervos. Aventureiros que partiam e não retornavam
deixando suas moedas na caverna, seus equipamentos, seu nome. O
demônio da mão maldita, era chamado.
Salek,
um bravo e destemido cavaleiro decidiu, por si próprio, invadir a montanha e
por um fim na história que ceifava diversas vidas dos vilarejos com a promessa
de uma riqueza sem tamanho. Era realmente um cavaleiro impressionante e superou
todos os desafios da caverna do demônio estando pronto para um embate, no fim.
Embate que não ocorreu, porque o demônio sofria da febre, e Salek era bom o
suficiente para não atacar o elfo negro sem motivos. Ele tentou ajudar o
demônio, que não entendia sua língua, e com muito custo, depois da febre
cessar, Salek saiu da caverna com o Drow, desmentindo a lenda para toda a
população.
Mas
os habitantes do vilarejo queriam vingança. O Drow havia levado incontáveis
vidas dos filhos de todo o vilarejo. Eles queria sua cabeça. E em pouco tempo,
a cabeça do, outrora herói, Salek também.
Ambos
fugiram às pressas para o topo da antiga montanha do Demônio da mão maldita, e
para a surpresa de ambos, um belo vilarejo existia obscurecido pela miasma da
montanha. Mais tarde descobriram ser o vilarejo do Mestre Ryu Chin, um ancião
tremendamente habilidoso numa arte marcial baseada na compreensão dos elementos
que formam o mundo e na observação dos movimentos dos animais.
No
vilarejo de Ryu Chin, o demônio viveu até o fim dos dias de seu primeiro, e até
então único amigo, Salek, aprendendo com o mestre suas habilidades e compreendendo
a vida do herói renegado. Seu amigo humano, que conheceu aparentando ser seu
irmão mais novo, e partiu parecendo ser seu avô.
No
vilarejo, o demônio aprendeu a falar, ler, escrever. Aprendeu sobre história,
religião, disciplina, determinação, herbologia, astrologia, ética e
comportamento. Com isso, passou a direcionar melhor seus mais confusos
pensamentos, ao passo que se tornou um dos mais graduados discípulos de Ryu
Chin.
Segundo
as palavras do próprio mestre, seu treinamento jamais terminaria, mas o que ele
teria a aprender com o mestre havia acabado. O mestre disse que ele deveria
partir e seguir a direção que seu coração mandasse. Antes de partir, Ryu Chin o
nomeou, assim como os pais fazem com seus filhos. E essa cerimônia foi
assistida por todo o vilarejo. O velho mestre Ryu Chin, cento e trinta anos
depois da chegada do drow em sua vila, o nomeou como Kadvra, o nome da primeira
lótus negra datada na história. A flor que nasceu nas bordas do vulcão e se
alimentou das fagulhas de fogo que a ela sobravam e cresceu mais forte que
qualquer outra flor.
Kadvra,
o demônio da mão maldita, partiu da vila de Ryu Chin jurando um dia voltar para
passar seus últimos dias. Partiu sem deixar nada pra trás. Partiu levando a
vila e o coração de Salek em seu próprio coração. Guiado pela energia e
iluminado pelas estrelas, o sobrevivente, a lótus negra do reino dos elfos.
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