sábado, 31 de agosto de 2013

A lótus negra do reino dos elfos

            Algumas memórias confusas apenas. Dor, sofrimento e um fervor pulsante de sobrevivência. Fome, frio, cansaço. Cada dia parecia tão longo como a idade do mundo, e cada novo dia parecia mais longo que o anterior. Cada segundo um desafio maior que o outro. Um desafio dentro de outro.
            Dias, semanas, meses, anos. Cada segundo rastejando até a próxima lesma que pudesse saciar a fome quase fatal. Rastejar suportando a dor das picadas de aranhas. A pele queimando à fúria das formigas. Por vezes, sem enxergar devido aos efeitos dos venenos. Por vezes sem sentir nem ouvir. O sentimento de morte implícito em cada lembrança. Morte a cada dia. Sem nascer de novo.
            Quando conseguiu tamanho o suficiente para conseguir se alimentar de algo que não fosse pequenos vermes, seu corpo aos poucos parava de emanar cheiro podre, e atrair animais mais perigosos. O inferno não havia terminado, não estava nem perto de começar.
            Se alimentando da carne de seus caçadores. Ainda vivos. Resistindo semanas com braços e pernas dilacerados por lobos e felinos. Aprendendo a caçá-los antes de ser caçado. Chegou à fase adulta. Enfermo. Devido ao seu desenvolvimento repleto de podridão, desenvolveu uma doença que mais parecia uma maldição. Uma febre incontrolável, capaz de queimar ao toque. Insuportável. Que de tempos em tempos o afligia. Sem avisar. Sem misericórdia.
            Uma lenda surgiu nos vilarejos próximos dizendo que um demônio vivia no interior daquelas cavernas, guardando tesouros, e não demorou para que aventureiros desavisados se embrenhassem na escuridão da caverna dele sendo minados pelas dificuldades, para ele, corriqueiras, como aranhas gigantes, buracos apertados, lâminas naturais venenosas nas paredes e armadilhas dos örghal. Chegavam até ele quase mortos, e o que podia ser feito o era. E assim, uma lenda foi construída passando a ganhar carne e nervos. Aventureiros que partiam e não retornavam deixando suas moedas na caverna, seus equipamentos, seu nome. O demônio da mão maldita, era chamado.
            Salek, um bravo e destemido cavaleiro decidiu, por si próprio, invadir a montanha e por um fim na história que ceifava diversas vidas dos vilarejos com a promessa de uma riqueza sem tamanho. Era realmente um cavaleiro impressionante e superou todos os desafios da caverna do demônio estando pronto para um embate, no fim. Embate que não ocorreu, porque o demônio sofria da febre, e Salek era bom o suficiente para não atacar o elfo negro sem motivos. Ele tentou ajudar o demônio, que não entendia sua língua, e com muito custo, depois da febre cessar, Salek saiu da caverna com o Drow, desmentindo a lenda para toda a população.
            Mas os habitantes do vilarejo queriam vingança. O Drow havia levado incontáveis vidas dos filhos de todo o vilarejo. Eles queria sua cabeça. E em pouco tempo, a cabeça do, outrora herói, Salek também.
            Ambos fugiram às pressas para o topo da antiga montanha do Demônio da mão maldita, e para a surpresa de ambos, um belo vilarejo existia obscurecido pela miasma da montanha. Mais tarde descobriram ser o vilarejo do Mestre Ryu Chin, um ancião tremendamente habilidoso numa arte marcial baseada na compreensão dos elementos que formam o mundo e na observação dos movimentos dos animais.
            No vilarejo de Ryu Chin, o demônio viveu até o fim dos dias de seu primeiro, e até então único amigo, Salek, aprendendo com o mestre suas habilidades e compreendendo a vida do herói renegado. Seu amigo humano, que conheceu aparentando ser seu irmão mais novo, e partiu parecendo ser seu avô.
            No vilarejo, o demônio aprendeu a falar, ler, escrever. Aprendeu sobre história, religião, disciplina, determinação, herbologia, astrologia, ética e comportamento. Com isso, passou a direcionar melhor seus mais confusos pensamentos, ao passo que se tornou um dos mais graduados discípulos de Ryu Chin.
            Segundo as palavras do próprio mestre, seu treinamento jamais terminaria, mas o que ele teria a aprender com o mestre havia acabado. O mestre disse que ele deveria partir e seguir a direção que seu coração mandasse. Antes de partir, Ryu Chin o nomeou, assim como os pais fazem com seus filhos. E essa cerimônia foi assistida por todo o vilarejo. O velho mestre Ryu Chin, cento e trinta anos depois da chegada do drow em sua vila, o nomeou como Kadvra, o nome da primeira lótus negra datada na história. A flor que nasceu nas bordas do vulcão e se alimentou das fagulhas de fogo que a ela sobravam e cresceu mais forte que qualquer outra flor.
            Kadvra, o demônio da mão maldita, partiu da vila de Ryu Chin jurando um dia voltar para passar seus últimos dias. Partiu sem deixar nada pra trás. Partiu levando a vila e o coração de Salek em seu próprio coração. Guiado pela energia e iluminado pelas estrelas, o sobrevivente, a lótus negra do reino dos elfos.

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