segunda-feira, 8 de julho de 2013

Um Nobre Andarilho

“Disseram que foi menos de um minuto a diferença de tempo entre meu nascimento e o nascimento de Cross, e já até ouvi dizer uma vez que quem nasceu primeiro fui eu, mas tanto faz, boatos não fazem a menor diferença diante dos fatos, e o que está registrado nos livros sagrados é fato, assim como nos foi ensinado.
Acredito mesmo que ele tenha sido muito superior a mim em diversas coisas, mas a diferença entre nós não era do tamanho que parecia. Ele sempre foi beneficiado em qualquer ensinamento, treinamento, presente.
Ainda assim, eu nunca o invejei, afinal, tratava-se do meu irmão, meu irmão mais velho, herdava o sobrenome dos guardiões da Chama Prateada há mais tempo que eu e por ele eu daria minha vida, se necessário, sem pensar.
Alassea se casara com ele.
Nada parecia injusto perante o poder de um nome tão influente na igreja até este ato de traição.
Haviam muitas mulheres no mundo. Mulheres poderosas, eu diria. Mas Terence, aquele maldito cardeal, queria me expor na frente de todos os meus ancestrais. Mostrar o primeiro Muller a demonstrar sentimentos. Mostrar que o nome da nossa família era uma espécie de mito, que nosso sangue não carregava nada de especial.
Pois em nome dos Muller, eu reneguei meu próprio nome, e em nome de Alassea, eu desertei da igreja. Entrei para o exército e fui treinar como um soldado. Red, o bastardo, eles me chamavam. Os pobres diabos sequer sabiam o que a palavra significava, e a preguiça de lidar com ignorantes me fazia ficar calado.
Meus documentos não carregavam mais o nome Muller, mas meu sangue ainda era da nobre família dos guardiões da Chama Prateada, portanto, logo fui visto dentro do exército, e mesmo sendo um recém plebeu, passei a gozar de certo mérito. Mérito conquistado à suor e sangue, pagando o preço do metal e da fé, abençoado pela Chama Prateada que me protegia para protegê-la.
Entretanto, o terrível sentimento que me orgulhei de nunca ter sentido parecia me perseguir, pois agora num posto privilegiado, forças sombrias maquinavam para exortar de mim as benesses conquistadas.
Terras e títulos nunca aproveitados foram de mim retirados sob acusações falsas, e durante a experiência terrível de experimentar o cortejo da morte no campo de batalha por incansáveis noites, pude ver a luz da Chama Prateada se revelar para mim na forma de um construto. Um soldado, criado para a batalha, treinado para desenvolver essa única atividade, veio me alertar sobre o motim. Perfuratron, se autointitulava, e eu só podia imaginar ser o mais forte sinal da minha protetora. Me contou todos os detalhes dos quais eu precisava saber e me ofereceu uma ajuda mais que fundamental para minha sobrevivência.
O construto pertencia a uma patente alta também, e isso poderia o causar problemas. Segui sozinho para Aerenal com o único intuito de me esconder, por hora, longe da fortaleza da Chama, longe do exército, longe da inveja. Eu precisava pensar.
Chegou até mim, através de uma meticulosa artimanha do destino, a informação de que Alassea havia falecido. Minha amada fizera a passagem devido ao parto de seu segundo filho de Cross, meu amado irmão. Meu mais novo sobrinho se chamara Rourke, o nome que havíamos escolhido juntos para nosso filho, que jamais nascera. A criança estava entregue aos cuidados de seu irmão mais velho, Neo e aos templários, pois Terence havia enviado Cross junto de uma pequena comitiva a uma verdadeira guerra em Karrnath.
O maldito enviou meu irmão para morrer. Mas porque queria isso? Que motivos teria Terence para acabar com os Muller dentro da fortaleza da Chama?

Soube que com o fim da guerra, os construtos foram libertos, e isso me fez pedir que a Chama Prateada guiasse meus passos até Perfuratron, para que eu pudesse acertar minha dívida de gratidão para com ele, e depois, talvez, tentar retornar à fortaleza da Chama exigir um pouco de justiça.”

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