sábado, 15 de junho de 2013

Zaubereriel - A aparição

De corpo musculoso, mesmo sendo uma dama, fazia com que as raras folhas das árvores secas farfalhassem ao passar correndo por uma trilha não muito utilizada. Seus longos cabelos avermelhados de meios caracóis não muito bem cuidados davam uma aparência espectral à aquela que se movia velozmente ao som das correntes de seu mangual atroz que levava em punhos. Sua pele calejada não se feria com o choque dos galhos afiados em seu caminho, mesmo estando não muito coberta. As peles de cervo que trajava eram esteticamente posicionadas apenas para cobrir suas vergonhas. Ao seu julgar, antes do completo anoitecer chegaria à cidade em que o gigante de pedra a quem perseguia estaria.
Ao lado da taverna onde “o anão” estava hospedado com mais três membros da comitiva, a pequena e ágil garota, facilmente confundível com as sombras na parede, tal como elas, se movia de um lado para o outro para ter certeza. Fez uma pausa como que se concentrando em uma oração enquanto há poucos metros dali, o imponente cavaleiro em sua armadura brilhante, encostado na venda em frente à entrada da taverna, compreendia seus pensamentos, e dava-lhe mais algumas instruções.
Mesmo para uma rua com um parque a frente, parque este que levava até a entrada da floresta mais próxima, a rua estava deserta, iluminada apenas pelo forte holofote da lua cheia e banhada pelas crocitadas pouco frequentes dos corvos albinos. A mulherona chegou à beira do parque a avistou a entrada da taverna, muito bem cuidada, diferente das outras das quais já havia visto noutros cantos. Sem pensar duas vezes, pé ante pé partiu à procura de Dark, o salvador do deus das águas da cordilheira dos Khans.
- O deus da lua te dá boa noite, senhor – referiu-se, a bárbara, ao icônico taverneiro calvo e barrigudo.
- Boa noite, senhora. Um quarto ou uma bebida?
- Quero saber se um cara bem grande, um Grondi, com mais umas três pessoas tá dormindo aqui.
- Bom, são poucos quartos, mas quem estava durante o dia era o meu filho, então eu não sei quem pode estar dormindo aqui. Você poderia passar a noite aqui e esperar aqui em baixo nas mesas durante o café da manhã pra ver se eles aparecem.
- Bebida, então, agora. Depois eu quero um lugar pra dormir.
Zaide Khan, como se chamava a mulherona, dirigiu-se a uma das mesas e pôs se a esperar alguma movimentação antes que o sono a consumisse, enquanto consumia a deliciosa cerveja Morkleediana.
Do lado de fora, um calafrio particular risca as espinhas da garota e do cavaleiro, ao passo que a bizarra criatura encapuzada se aproxima. Um largo manto de um vermelho escuro fúnebre contendo pequenos ganchos afiados na barra que faziam um incômodo barulho ao riscar o chão. Botas e manoplas de um metal escuro enferrujado, e nem mesmo sob o forte banho do luar era possível ver qualquer parte do seu rosto. Artas, o experiente cavaleiro de armadura brilhante, parecia tentar se lembrar de algo relacionado ao assombroso contido em algum de seus velhos livros.
A criatura medonha adentrou à taverna e ao passar a manopla no balcão, o taverneiro se entregou a um desespero sobrenatural, gritando ao prantos, pulando o balcão como se tivesse com uns vinte e tantos anos a menos e disparando para qualquer lugar. Ao ver a cena, o herói imponente partiu tão rápido quanto sua armadura completa permitia na direção do bizarro, enquanto a frágil garota ainda procurava pelo quarto do anão.
- Ei! – gritou, a mulherona, para chama a atenção do assombroso, que sem se importar, fez um movimento com o corpo e emitiu um som que fez parecer que havia dado uma fungada, e logo após, continuou andando.
Saltou da cadeira com seu mangual atroz zunindo sobre sua cabeça às giradas tempestuosas acertando em cheio nas costas da criatura ao fim do movimento, e para seu espanto, mesmo com o barulho de mil ossos se quebrando, a criatura continuou sua caminhada como se não tivesse acontecendo nada.
Um estrondo na porta de entrada da taverna e um grito grave imponente cortou o ar na direção da bárbara e do bizarro.
- POR CURA, PARE!!!
A criatura se virou lentamente ao passo que o cavaleiro, murmurando uma prece, fez com que sua espada revelasse um brilho sobrenatural, e enquanto isso, a mulherona desferiu mais uma vez um ataque com seu poderoso mangual atroz, dessa vez, acertando em cheio no que seria a face do assombroso que, mais uma vez, fez que nada aconteceu.
Do lado de fora, a pequena garota finalmente encontrou o quarto onde o anão estava dormindo, aparentemente ainda mal, e seu fiel escudeiro, Edric, o raposa de Varskher, estava sentado na beirada da cama com sua espada em punhos, parecendo estar à espera da visita da criatura horripilante.
- Ei vocês, saiam logo daí, mas não pela porta senão vão morrer! – gritou, a garota, aos dois que estavam na cama.
- Ora, quem é você e porque acha que eu confiaria em você? – retrucou, o raposa, ao se virar para a garota.
- NÃO TEMOS TEMPO PRA ISSO, RÁPIDO!!!
- Akaji – chamou com uma tentativa de sussurro o gigante de pedra – Akaji, ouviu essa barulheira?
- Ahn?
- Ouvi umas porradas e agora uma gritaria do lado de fora.
- O ANÃO! – saltou da cama despertando-se num instante, o monge – Vê a porta, se tem alguma coisa.
O gigante saltou da cama e empunhou seu montante partindo para a porta do quarto, e ao abrir, deparou-se com uma órbita avermelhada no meio da escuridão de um capuz cor de ferrugem, quase perdendo os sentidos e caindo sentado, inerte, há poucos metros da porta. Vendo a cena, o lutador partiu correndo na direção do bizarro desferindo uma série de golpes que pareciam não surtir efeito. Zaide, por sua vez, embora tenha ficado feliz por ter encontrado o gigante de pedra, Dark, ainda estava desesperada por tê-lo visto se render ao medo e principalmente pela natureza macabra do assombroso.
Artas, agora com sua espada brilhante, correu em direção à criatura sombria tentando golpeá-la, mas tem sua espada desviada pela manopla direita da criatura, que estende a mão aberta na direção da perna do cavaleiro e, com uma assustadora explosão de sangue, fez com que os estilhaços dos ossos da canela do herói destruísse a porta do final do corredor, outrora ainda fechada, e com isso ferisse Edric e o anão.
Assustado, o raposa tentava ajudar o anão a escapar pela janela acompanhando a frágil garota que aguardava pelo lado de fora do quarto, até o momento, sem ser vista, enquanto a mulherona e o monge atacavam sem cessar.
O cavaleiro, gritando de dor e com os pensamentos confusos, escorado na sua espada brilhante, murmurou mais uma prece e conseguiu, com muito esforço, novamente ficar de pé, mas o bizarro já estava novamente com seu braço estendido, e dessa vez, na direção da bárbara. Ao fechar a mão, um bruto rasgo partindo da base do pescoço até a cintura de Zaide Khan foi se abrindo ao passo que seu sangue corria dançando no ar até a mão estendida do bizarro, tomando a forma de uma gigantesca espada cor de ferrugem. Akaji deu dois passos para trás se juntando a Dark, assustado pelo fato de a mulherona ainda estar de pé, e aparentemente com um ódio infeccioso saltando dos olhos.
- Zaubereriel! – sussurrou, o cavaleiro, enquanto tinha a espada feita de sangue em sua mente – Este é o conjurador, Zaubereriel, quebrem a espada!
Artas finalmente conseguiu se lembrar de onde conhecia a tal criatura. Um livro antigo de rumores, que parecia claro para o cavaleiro, não ser mais apenas rumores.
Zaubereriel, o bizarro, saltou girando a uma velocidade incrível na direção do raposa, e enquanto girava, as lâminas da base de seu manto passaram cortando o cavaleiro, a bárbara, o monge e o próprio raposa, mas nenhum dos ferimentos passou de um arranhão. O anão acabava de passar para o lado de fora do quarto, e quando Edric se virou para o horrendo, ele parecia se preparar para atacá-lo com a espada feita do sangue de Zaide Khan.
Os estilhaços da espada voaram por todo o quarto, e a mulherona atacava cada um deles sem pensar. O bizarro, agora desarmado, estendeu sua mão na direção de Edric, que chorou mudo de medo. Mas um virote vindo de fora do quarto, embrenhou-se na escuridão da face do manto, fazendo-o cair no chão, vazio.
- Apressem-se, pois ele vai voltar. – orientou, Artas, enquanto tossia e mancava na direção dos feridos.

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