De corpo musculoso,
mesmo sendo uma dama, fazia com que as raras folhas das árvores secas
farfalhassem ao passar correndo por uma trilha não muito utilizada. Seus longos
cabelos avermelhados de meios caracóis não muito bem cuidados davam uma
aparência espectral à aquela que se movia velozmente ao som das correntes de
seu mangual atroz que levava em punhos. Sua pele calejada não se feria com o
choque dos galhos afiados em seu caminho, mesmo estando não muito coberta. As
peles de cervo que trajava eram esteticamente posicionadas apenas para cobrir
suas vergonhas. Ao seu julgar, antes do completo anoitecer chegaria à cidade em
que o gigante de pedra a quem perseguia estaria.
Ao lado da taverna
onde “o anão” estava hospedado com mais três membros da comitiva, a pequena e
ágil garota, facilmente confundível com as sombras na parede, tal como elas, se
movia de um lado para o outro para ter certeza. Fez uma pausa como que se concentrando
em uma oração enquanto há poucos metros dali, o imponente cavaleiro em sua
armadura brilhante, encostado na venda em frente à entrada da taverna,
compreendia seus pensamentos, e dava-lhe mais algumas instruções.
Mesmo para uma rua
com um parque a frente, parque este que levava até a entrada da floresta mais
próxima, a rua estava deserta, iluminada apenas pelo forte holofote da lua
cheia e banhada pelas crocitadas pouco frequentes dos corvos albinos. A
mulherona chegou à beira do parque a avistou a entrada da taverna, muito bem
cuidada, diferente das outras das quais já havia visto noutros cantos. Sem
pensar duas vezes, pé ante pé partiu à procura de Dark, o salvador do deus das águas
da cordilheira dos Khans.
- O deus da lua te dá
boa noite, senhor – referiu-se, a bárbara, ao icônico taverneiro calvo e
barrigudo.
- Boa noite, senhora.
Um quarto ou uma bebida?
- Quero saber se um
cara bem grande, um Grondi, com mais umas três pessoas tá dormindo aqui.
- Bom, são poucos quartos,
mas quem estava durante o dia era o meu filho, então eu não sei quem pode estar
dormindo aqui. Você poderia passar a noite aqui e esperar aqui em baixo nas
mesas durante o café da manhã pra ver se eles aparecem.
- Bebida, então,
agora. Depois eu quero um lugar pra dormir.
Zaide Khan, como se
chamava a mulherona, dirigiu-se a uma das mesas e pôs se a esperar alguma
movimentação antes que o sono a consumisse, enquanto consumia a deliciosa
cerveja Morkleediana.
Do lado de fora, um
calafrio particular risca as espinhas da garota e do cavaleiro, ao passo que a
bizarra criatura encapuzada se aproxima. Um largo manto de um vermelho escuro
fúnebre contendo pequenos ganchos afiados na barra que faziam um incômodo barulho
ao riscar o chão. Botas e manoplas de um metal escuro enferrujado, e nem mesmo
sob o forte banho do luar era possível ver qualquer parte do seu rosto. Artas,
o experiente cavaleiro de armadura brilhante, parecia tentar se lembrar de algo
relacionado ao assombroso contido em algum de seus velhos livros.
A criatura medonha
adentrou à taverna e ao passar a manopla no balcão, o taverneiro se entregou a
um desespero sobrenatural, gritando ao prantos, pulando o balcão como se
tivesse com uns vinte e tantos anos a menos e disparando para qualquer lugar.
Ao ver a cena, o herói imponente partiu tão rápido quanto sua armadura completa
permitia na direção do bizarro, enquanto a frágil garota ainda procurava pelo
quarto do anão.
- Ei! – gritou, a
mulherona, para chama a atenção do assombroso, que sem se importar, fez um
movimento com o corpo e emitiu um som que fez parecer que havia dado uma
fungada, e logo após, continuou andando.
Saltou da cadeira com
seu mangual atroz zunindo sobre sua cabeça às giradas tempestuosas acertando em
cheio nas costas da criatura ao fim do movimento, e para seu espanto, mesmo com
o barulho de mil ossos se quebrando, a criatura continuou sua caminhada como se
não tivesse acontecendo nada.
Um estrondo na porta
de entrada da taverna e um grito grave imponente cortou o ar na direção da
bárbara e do bizarro.
- POR CURA, PARE!!!
A criatura se virou
lentamente ao passo que o cavaleiro, murmurando uma prece, fez com que sua
espada revelasse um brilho sobrenatural, e enquanto isso, a mulherona desferiu
mais uma vez um ataque com seu poderoso mangual atroz, dessa vez, acertando em
cheio no que seria a face do assombroso que, mais uma vez, fez que nada
aconteceu.
Do lado de fora, a
pequena garota finalmente encontrou o quarto onde o anão estava dormindo,
aparentemente ainda mal, e seu fiel escudeiro, Edric, o raposa de Varskher,
estava sentado na beirada da cama com sua espada em punhos, parecendo estar à
espera da visita da criatura horripilante.
- Ei vocês, saiam
logo daí, mas não pela porta senão vão morrer! – gritou, a garota, aos dois que
estavam na cama.
- Ora, quem é você e
porque acha que eu confiaria em você? – retrucou, o raposa, ao se virar para a
garota.
- NÃO TEMOS TEMPO PRA
ISSO, RÁPIDO!!!
- Akaji – chamou com
uma tentativa de sussurro o gigante de pedra – Akaji, ouviu essa barulheira?
- Ahn?
- O ANÃO! – saltou da
cama despertando-se num instante, o monge – Vê a porta, se tem alguma coisa.
O gigante saltou da
cama e empunhou seu montante partindo para a porta do quarto, e ao abrir,
deparou-se com uma órbita avermelhada no meio da escuridão de um capuz cor de
ferrugem, quase perdendo os sentidos e caindo sentado, inerte, há poucos metros
da porta. Vendo a cena, o lutador partiu correndo na direção do bizarro
desferindo uma série de golpes que pareciam não surtir efeito. Zaide, por sua
vez, embora tenha ficado feliz por ter encontrado o gigante de pedra, Dark,
ainda estava desesperada por tê-lo visto se render ao medo e principalmente
pela natureza macabra do assombroso.
Artas, agora com sua
espada brilhante, correu em direção à criatura sombria tentando golpeá-la, mas
tem sua espada desviada pela manopla direita da criatura, que estende a mão
aberta na direção da perna do cavaleiro e, com uma assustadora explosão de
sangue, fez com que os estilhaços dos ossos da canela do herói destruísse a
porta do final do corredor, outrora ainda fechada, e com isso ferisse Edric e o
anão.
Assustado, o raposa
tentava ajudar o anão a escapar pela janela acompanhando a frágil garota que
aguardava pelo lado de fora do quarto, até o momento, sem ser vista, enquanto a
mulherona e o monge atacavam sem cessar.
O cavaleiro, gritando
de dor e com os pensamentos confusos, escorado na sua espada brilhante, murmurou
mais uma prece e conseguiu, com muito esforço, novamente ficar de pé, mas o
bizarro já estava novamente com seu braço estendido, e dessa vez, na direção da
bárbara. Ao fechar a mão, um bruto rasgo partindo da base do pescoço até a
cintura de Zaide Khan foi se abrindo ao passo que seu sangue corria dançando no
ar até a mão estendida do bizarro, tomando a forma de uma gigantesca espada cor
de ferrugem. Akaji deu dois passos para trás se juntando a Dark, assustado pelo
fato de a mulherona ainda estar de pé, e aparentemente com um ódio infeccioso
saltando dos olhos.
- Zaubereriel! –
sussurrou, o cavaleiro, enquanto tinha a espada feita de sangue em sua mente –
Este é o conjurador, Zaubereriel, quebrem a espada!
Artas finalmente
conseguiu se lembrar de onde conhecia a tal criatura. Um livro antigo de
rumores, que parecia claro para o cavaleiro, não ser mais apenas rumores.
Zaubereriel, o
bizarro, saltou girando a uma velocidade incrível na direção do raposa, e
enquanto girava, as lâminas da base de seu manto passaram cortando o cavaleiro,
a bárbara, o monge e o próprio raposa, mas nenhum dos ferimentos passou de um
arranhão. O anão acabava de passar para o lado de fora do quarto, e quando
Edric se virou para o horrendo, ele parecia se preparar para atacá-lo com a
espada feita do sangue de Zaide Khan.
Os estilhaços da
espada voaram por todo o quarto, e a mulherona atacava cada um deles sem pensar.
O bizarro, agora desarmado, estendeu sua mão na direção de Edric, que chorou
mudo de medo. Mas um virote vindo de fora do quarto, embrenhou-se na escuridão
da face do manto, fazendo-o cair no chão, vazio.
- Apressem-se, pois
ele vai voltar. – orientou, Artas, enquanto tossia e mancava na direção dos
feridos.


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