quarta-feira, 15 de maio de 2013

Uma Conversa na Escuridão


- Olá, é, com licença...?
- É comigo?
- Ahn... sim, não tem mais ninguém aqui.
- Impressão sua!
- Onde estão os outros?
- Que outros?
- Ora foi você que disse que tem mais gente aqui!
- Eu nunca disse isso.
- Mas fez com que eu entendesse assim!
- Mais uma vez, impressão sua!
- Vai ficar me dando respostas assim?
- Talvez... Se você continuar fazendo perguntas assim, é a minha única opção.
- Impressão sua!
- Por quê?
- Desisto, esse jogo eu não sei jogar...
- Estávamos jogando?
- Foi modo de dizer...
- E queria dizer o que com isso?
- Que não consigo ser tão chato quanto você!
- Porque me acha chata?
- Eu não acho. Você é!
- Impressão sua! De novo! Aliás, você que não é dos mais legais, sabia?
- Sabia...
- E não se importa com isso?
- Sim, eu me importo!
- E faz alguma coisa a respeito?
- Faço.
- O que?
- Continuo sendo da mesma forma.
- Interessante.
- Porque acha isso interessante?
- Porque você é diferente. Há quanto tempo está aqui?
- Não sei como se mede o tempo aqui.
- Como se mede o tempo em outro lugar?
- Não sei, eu apenas olhava no relógio... ele que media o tempo...
- Você sequer via o tempo passar...
- Pois é. Agora eu vejo...
- Então agora aprendeu a medir o tempo?
- Não, apenas aprendi a vê-lo passar.
- E acha isso bom?
- Não sei. Isso não me traz nenhuma felicidade. Na verdade me traz tristezas.
- Então é ruim?
- Não também. São tristezas sinceras, o que pra mim, valem mais do que felicidades ilusórias...
- Como sabe quando uma coisa é sincera ou ilusória?
- Poxa, agora você me pegou...
- Você podia acreditar que as tristezas são ilusórias e as felicidades sinceras, não?
- Acho que não...
- E por quê?
- Porque eu sou uma pessoa triste, e não sei lidar com a felicidade.
- Eu sempre achei que a tristeza fosse um nível da felicidade. Aliás, um nível bem baixo.
- É, deve ser...
- Então você está se contradizendo de novo!
- Na verdade não... Por que acha isso?
- Porque você disse que é triste e não sabe lidar com a felicidade.
- Sim. E daí?
- E depois você concordou que a tristeza é um nível bem baixo de felicidade.
- O mais baixo, diga-se de passagem.
- Então!
- Então o que, criatura?!
- Você não sabe lidar com felicidade, mas tem felicidade em certo nível?
- Sim, no mais baixo deles, já que eu não sei lidar com isso, me mantenho no mínimo.
- Pensando dessa forma, faz sentido.
- Por quê?
- Porque, considerando que a felicidade é uma atividade, ser uma pessoa triste é quase a mesma coisa que dizer que é uma pessoa preguiçosa. Ou seja, você só se esforça na atividade da felicidade, num mínimo grau.
- Sua resposta foi mais longe do que o que eu tinha pensado.
- Eu costumo fazer isso.
- Com quem?
- Comigo mesma.
- Afinal, além de você só existem aquelas pessoas assustadoras, não é mesmo?
- Eu não sei, talvez exista mais gente. Porque acha eles assustadores?
- Não sei por que decidem usar aquelas máscaras brancas. Retorcidas.
- Eles passaram tempo demais de suas vidas escondidos atrás dessas máscaras, e agora, agora eles já não têm mais escolha, eles se tornaram isso. Atrás dessas máscaras, o que um dia existiu, morreu sozinho na escuridão e no silêncio. Eles não decidiram usar essas máscaras num único momento, eles tomaram diversas decisões que contribuíram para que essas máscaras ganhassem carne e nervos. Eles tentaram proteger seus sentimentos escondendo-os atrás dessas máscaras, mas na verdade o que fizeram foi encarcerar seus sentimentos numa jaula sem comida e sem esperança, dando cada vez mais força à branca e brilhante porcelana facial, que decidiram usar, porque os outros já estavam usando.
- Uau. Que desabafo foi esse?
- Medo. Só medo.
- Medo de que?
- De você ficar legal, e eu também, e nos juntarmos aos outros.
- Que outros?


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