tic tac tic tac
Não se tratava dos acordes de um relógio.
tic tac tic tac
E o barulho se seguia com os sons de passos de sapatos
novos num chão liso e úmido, ecoando por uma sala grande a vazia.
tic tac tic tac
As lágrimas sonoras já podiam ser ouvidas entre um
tique-taquear e outro, perdidas entre os gritos do tênis no piso.
tic
E um incômodo silêncio se fez presente por infinitos dez
segundos, agonizantemente assustador, deliciosamente tenebroso.
Uma luz alaranjada se acendeu a altura de um cotovelo,
despertando o corpo outrora inerte pelo torpor do medo a uma insana e
desvairada tentativa inútil de se soltar das firmes amarras que o prendiam na
larga pilastra de concreto.
O zigue-zaguear das pernas longas pelo ar faziam com que
a chama dançasse esplendorosamente em meio ao breu, como se fizesse jus à
canção de gemidos que acompanhava a orquestra da sola e do solo.
Uma obra de arte.
O cheiro da maldade e da vingança talvez só não fosse
mais agradável que futum da carne queimada, carregando ainda os traços do éter
que outrora a pôs chão abaixo.
Uma gargalhada.
Silêncio.
E então, à medida em que o objeto flamejante segue o
curso imposto pela gravidade rumo ao pequeno lago inflamável, um grito, com
forças extraídas do fundo de uma alma esgotada e sem esperanças, ecoa, de
dentro para a eternidade, espalhando dor e sofrimento, amaldiçoando o prédio,
revigorando as almas dos que virão, e só o escuro resta.
Nem sequer se ouviu sons de passos novamente naquele
lugar.

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