“Olá, caro senhor Cross Muller. Caso esteja lendo essa
carta, significa que meu desejo ainda pode ser realizado, a menos é claro que
eu esteja morto. Antes de mais nada, gostaria de lhe falar um pouco sobre mim,
pode ser de seu interesse.
Desde que posso me lembrar, estou sendo doutrinado entre
as paredes protegidas pela Chama Prateada para me tornar o seu principal
defensor, e isso tudo se deve a uma coisa que você deixou pra mim. Muller.
Fui ensinado que o mal é algo que deve ser combatido em
todos os aspectos, e também fui ensinado sobre suas várias manifestações, sobre
suas artimanhas, enfim, me ensinaram as formas mais eficazes de combatê-lo e
tudo o mais que eu precisava saber para descobrir o que ainda não sabia. O mais
interessante em tudo isso é que eu não via sentido em acabar com algo pelo
simples fato de sua existência.
Não via sentido até achar o seu diário. Sobre a história
da nossa família. Os Muller junto de mais umas tantas famílias presenciaram a
origem da Chama Prateada e somos a linhagem protetora. Nas suas palavras, os
leais protetores da Chama Prateada. Pude perceber o quão sério falava no diário
quando fiquei sabendo que foi junto de uma pequena tropa a uma guerra em
Karrnath, combater algo que pudesse atingir nossa crença. Deixando seu filho de
oito anos e sua esposa grávida em Flamekeep, em Thrane.
Tudo o que penso a respeito de lealdade, foi o que
absorvi ao ler as nossas regras em seu diário e ao ver como Neo se comportava.
Como se aquilo tivesse sido cravado na alma dele desde antes mesmo de nascer.
Os sentimentos nos enfraquecem. Não basta não revelá-los, devemos não
senti-los. Eu vi como Neo entendia isso perfeitamente quando me contou o quanto
Alassea era boa e como foi que faleceu. No meu parto.
Quero dizer que esta, dentre tantas outras regras que
estavam no diário, foram encravadas na minha alma a ponto de ouvir até
comentários de que eu não tinha alma. Considerei como elogios. Entendi
finalmente que caçar e destruir o mal não tem nada a ver com sentimentos, não o
fazemos por proteção às vidas ou ao bem. É um dever. Um dever que temos com a
Chama Prateada, e não com sacerdotes, familiares ou com qualquer outra coisa.
Não pude acreditar quando com doze anos conheci uma
garota e passávamos várias horas juntos até o dia em que foi possuída por um
demônio menor. Disseram que eu deveria livrá-la daquilo. Acharam o que, que eu
iria deixar o demônio solto por aí? Que eu iria chorar depois? Pouco antes de
matá-la me impediram e a levaram. Perguntaram se eu estava bem. Eu só perguntei
porque deveria ser eu, se haviam tantos mais experientes. Confessaram ser um
teste. Já sabiam que eu não sentiria nada por ela, mas esperavam que eu
sentisse raiva deles. Eles não me conheciam.
Continuei até os dias de hoje escutando tudo o que me era
útil dos templários, e fingindo ouvir o que não me era, concentrando meus
estudos em seu diário e no comportamento de Neo, que parecia às vezes falho.
Bastava eu aprender com os erros dele.
Nos últimos tempos, comecei a ter pesadelos, algo totalmente
incomum pra mim. Nunca acordei assustado, mas confesso que esses sonhos me
despertaram certa curiosidade. Principalmente porque no dia seguinte ao
primeiro, o cardeal Alain amanheceu empalado na espada de Neo, no quarto de
Neo, e ele não estava lá. Pedi imediatamente para que mensageiros chamassem
oficiais da milícia em sigilo e comecei a investigar. Minha intuição me dizia
que Neo não teria feito isso o que era confirmado pelas marcas no cabo da
Harel. Os oficiais Ohen e Malavel vieram rapidamente. Fizemos grandes avanços.
Já tínhamos um rastro e nos levava de volta ao templo, mas quando de volta lá,
o sacerdote Terence nos aconselhou de forma bastante sugestiva para que
deixássemos o caso que o mesmo já estava resolvido. Tentamos argumentar a
respeito de nosso avanço, mas Terence nos convenceu de que realmente estava
resolvido o caso, caso não quiséssemos ser os responsáveis pelo assassinato.
Não tivemos tempo nem de nos despedir, mas eu ainda os encontro.
Meu irmão estava preso. Ele foi quem Terence acusou e eu
sabia que não havia sido. Fui na cela falar com Neo e pela primeira vez eu o vi
alterado. Eu já havia o visto falhar, demonstrar sentimentos pelas pessoas, mas
irritado, era a primeira vez. Me insultou. Demônio maldito ele disse. Mencionou
nossa mãe e Alain. Não sei o que ele queria dizer, só sei que não consegui
falar com ele.
Mais uma noite de pesadelos e quando acordei fui direto
na cela tentar mais uma vez falar com ele. Em vão. Pude analisar as grades e as
paredes da cela e pareciam intactas. Não havia guarda algum vigiando a cela do
templo e Neo estava empalado em uma lança bem no centro da cela. Antes mesmo
que eu pudesse pensar em qualquer coisa eu estava cercado. Terence estava entre
eles e me lançou um olhar de reprovação dando as costas. Fui preso.
Estranho não terem me revistado, e por esse motivo pude
sair. Sabia que tinha pouco tempo então fui rápido. Revistei cada sala que pude
e tudo o que encontrei foi meu símbolo sagrado na corrente que deixou pra mim e
Harel, a espada da família que estava sendo usada por Neo. Saí o mais rápido
que pude a procura de um lugar tranqüilo para pensar direito, mas não me
contive ao ver aquele demônio espreitando nos arredores da igreja.
Eu o persegui, ainda que ele não tivesse feito questão de
fugir. Lutamos, mas parece que eu o havia subestimado. A Chama Prateada havia
se apagado para mim. Pensei.
Não pude acreditar quando acordei e aquele demônio
cuidava de minhas feridas, feridas que ele mesmo havia feito. Não se tratava de
um demônio propriamente. Era mais como um amaldiçoado. Ele vinha fugindo há
tempos, talvez me fosse útil. Esperava abrigo, uma luz na sua vida nas paredes
da igreja. Creio que ele não teve uma boa impressão ao ser atacado por um servo
da igreja.
Esse demônio está comigo agora, ele me ensina a fugir
direito dos perseguidores e eu o protejo quando não conseguimos mais fugir. Ele
ainda procura a luz da sua vida, e eu, quero descobrir o que está havendo com a
igreja. Quero encontrar o responsável pelas mortes de Alain e do meu irmão, e descobrir
porque Terence queria os Muller fora da igreja, afinal, foi ele que o enviou
para a guerra em Karrnath, se me lembro.
Cross, preciso saber de tudo o que sabe e não consta em
seu diário. Quero te conhecer. Quero aprender mais sobre a Harel, já que pelo
que diz no diário, ela é fantástica. Não é um pedido de um filho, isso não
faria você querer me procurar, é um defensor leal da Chama Prateada querendo se
preparar para protegê-la do pior.
Você deixou o diário pra mim aqui, então, somente você
poderá encontrar essa carta. Me procure quando estiver de volta, eu posso estar
vivo.
Rourke Muller”

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