terça-feira, 28 de maio de 2013

O Diário de Rourke

“Olá, caro senhor Cross Muller. Caso esteja lendo essa carta, significa que meu desejo ainda pode ser realizado, a menos é claro que eu esteja morto. Antes de mais nada, gostaria de lhe falar um pouco sobre mim, pode ser de seu interesse.
Desde que posso me lembrar, estou sendo doutrinado entre as paredes protegidas pela Chama Prateada para me tornar o seu principal defensor, e isso tudo se deve a uma coisa que você deixou pra mim. Muller.
Fui ensinado que o mal é algo que deve ser combatido em todos os aspectos, e também fui ensinado sobre suas várias manifestações, sobre suas artimanhas, enfim, me ensinaram as formas mais eficazes de combatê-lo e tudo o mais que eu precisava saber para descobrir o que ainda não sabia. O mais interessante em tudo isso é que eu não via sentido em acabar com algo pelo simples fato de sua existência.
Não via sentido até achar o seu diário. Sobre a história da nossa família. Os Muller junto de mais umas tantas famílias presenciaram a origem da Chama Prateada e somos a linhagem protetora. Nas suas palavras, os leais protetores da Chama Prateada. Pude perceber o quão sério falava no diário quando fiquei sabendo que foi junto de uma pequena tropa a uma guerra em Karrnath, combater algo que pudesse atingir nossa crença. Deixando seu filho de oito anos e sua esposa grávida em Flamekeep, em Thrane.
Tudo o que penso a respeito de lealdade, foi o que absorvi ao ler as nossas regras em seu diário e ao ver como Neo se comportava. Como se aquilo tivesse sido cravado na alma dele desde antes mesmo de nascer. Os sentimentos nos enfraquecem. Não basta não revelá-los, devemos não senti-los. Eu vi como Neo entendia isso perfeitamente quando me contou o quanto Alassea era boa e como foi que faleceu. No meu parto.
Quero dizer que esta, dentre tantas outras regras que estavam no diário, foram encravadas na minha alma a ponto de ouvir até comentários de que eu não tinha alma. Considerei como elogios. Entendi finalmente que caçar e destruir o mal não tem nada a ver com sentimentos, não o fazemos por proteção às vidas ou ao bem. É um dever. Um dever que temos com a Chama Prateada, e não com sacerdotes, familiares ou com qualquer outra coisa.
Não pude acreditar quando com doze anos conheci uma garota e passávamos várias horas juntos até o dia em que foi possuída por um demônio menor. Disseram que eu deveria livrá-la daquilo. Acharam o que, que eu iria deixar o demônio solto por aí? Que eu iria chorar depois? Pouco antes de matá-la me impediram e a levaram. Perguntaram se eu estava bem. Eu só perguntei porque deveria ser eu, se haviam tantos mais experientes. Confessaram ser um teste. Já sabiam que eu não sentiria nada por ela, mas esperavam que eu sentisse raiva deles. Eles não me conheciam.
Continuei até os dias de hoje escutando tudo o que me era útil dos templários, e fingindo ouvir o que não me era, concentrando meus estudos em seu diário e no comportamento de Neo, que parecia às vezes falho. Bastava eu aprender com os erros dele.
Nos últimos tempos, comecei a ter pesadelos, algo totalmente incomum pra mim. Nunca acordei assustado, mas confesso que esses sonhos me despertaram certa curiosidade. Principalmente porque no dia seguinte ao primeiro, o cardeal Alain amanheceu empalado na espada de Neo, no quarto de Neo, e ele não estava lá. Pedi imediatamente para que mensageiros chamassem oficiais da milícia em sigilo e comecei a investigar. Minha intuição me dizia que Neo não teria feito isso o que era confirmado pelas marcas no cabo da Harel. Os oficiais Ohen e Malavel vieram rapidamente. Fizemos grandes avanços. Já tínhamos um rastro e nos levava de volta ao templo, mas quando de volta lá, o sacerdote Terence nos aconselhou de forma bastante sugestiva para que deixássemos o caso que o mesmo já estava resolvido. Tentamos argumentar a respeito de nosso avanço, mas Terence nos convenceu de que realmente estava resolvido o caso, caso não quiséssemos ser os responsáveis pelo assassinato. Não tivemos tempo nem de nos despedir, mas eu ainda os encontro.
Meu irmão estava preso. Ele foi quem Terence acusou e eu sabia que não havia sido. Fui na cela falar com Neo e pela primeira vez eu o vi alterado. Eu já havia o visto falhar, demonstrar sentimentos pelas pessoas, mas irritado, era a primeira vez. Me insultou. Demônio maldito ele disse. Mencionou nossa mãe e Alain. Não sei o que ele queria dizer, só sei que não consegui falar com ele.
Mais uma noite de pesadelos e quando acordei fui direto na cela tentar mais uma vez falar com ele. Em vão. Pude analisar as grades e as paredes da cela e pareciam intactas. Não havia guarda algum vigiando a cela do templo e Neo estava empalado em uma lança bem no centro da cela. Antes mesmo que eu pudesse pensar em qualquer coisa eu estava cercado. Terence estava entre eles e me lançou um olhar de reprovação dando as costas. Fui preso.
Estranho não terem me revistado, e por esse motivo pude sair. Sabia que tinha pouco tempo então fui rápido. Revistei cada sala que pude e tudo o que encontrei foi meu símbolo sagrado na corrente que deixou pra mim e Harel, a espada da família que estava sendo usada por Neo. Saí o mais rápido que pude a procura de um lugar tranqüilo para pensar direito, mas não me contive ao ver aquele demônio espreitando nos arredores da igreja.
Eu o persegui, ainda que ele não tivesse feito questão de fugir. Lutamos, mas parece que eu o havia subestimado. A Chama Prateada havia se apagado para mim. Pensei.
Não pude acreditar quando acordei e aquele demônio cuidava de minhas feridas, feridas que ele mesmo havia feito. Não se tratava de um demônio propriamente. Era mais como um amaldiçoado. Ele vinha fugindo há tempos, talvez me fosse útil. Esperava abrigo, uma luz na sua vida nas paredes da igreja. Creio que ele não teve uma boa impressão ao ser atacado por um servo da igreja.
Esse demônio está comigo agora, ele me ensina a fugir direito dos perseguidores e eu o protejo quando não conseguimos mais fugir. Ele ainda procura a luz da sua vida, e eu, quero descobrir o que está havendo com a igreja. Quero encontrar o responsável pelas mortes de Alain e do meu irmão, e descobrir porque Terence queria os Muller fora da igreja, afinal, foi ele que o enviou para a guerra em Karrnath, se me lembro.
Cross, preciso saber de tudo o que sabe e não consta em seu diário. Quero te conhecer. Quero aprender mais sobre a Harel, já que pelo que diz no diário, ela é fantástica. Não é um pedido de um filho, isso não faria você querer me procurar, é um defensor leal da Chama Prateada querendo se preparar para protegê-la do pior.
Você deixou o diário pra mim aqui, então, somente você poderá encontrar essa carta. Me procure quando estiver de volta, eu posso estar vivo.


Rourke Muller”

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