quarta-feira, 31 de julho de 2013

Um pouco mais sobre mim

É bem verdade que, muito embora nunca tenha escrito descaradamente a meu respeito, cada vírgula das coisas postadas nesse blog carrega algo de mim e, portanto, é bem fácil me conhecer através disso, seja em um prelúdio de um personagem que eu tenha criado, seja em uma tentativa frustrada de poesia ou mesmo em um desabafo catalisado “etílicamente”. Em qualquer que fosse o caso, minha mão nunca consegue ficar de fora do que escrevo.
Agora vou tentar ser um pouquinho diferente, estou falando descaradamente de mim e da qualidade que eu tenho (ou achei que tivesse). A capacidade de aprender rápido.
Desde muito jovem, tudo o que eu me propunha a fazer eu conseguia fazer, e em pouquíssimo tempo eu conseguia não só fazer bem feito, mas inovar, e com o tempo aconteceu algo que eu considero bastante ruim. Eu comecei a subestimar a dificuldade das coisas. Bastava eu começar a fazer algo e assim que eu percebia que iria conseguir eu não só passava a achar fácil, mas perdia o interesse.
Diversos desafios foram apresentado a mim nesses quase trinta anos (exagerei nos “quase trinta”?), e poucos foram os que se mostraram realmente complexos a ponto de despertar meu interesse de modo que eu continuasse aprimorando até fazer o que eu fazia antes. Meio que sem perceber, eu havia deixado algumas coisas pra trás que só recentemente eu fui notar.
Dois novos, e bem específicos, desafios surgiram recentemente na minha vida e algo diferente aconteceu dessa vez. Pela primeira vez eu tive medo de não conseguir aprender rápido. Na verdade, era um pouco pior que isso, eu tive medo de não conseguir aprender levando o tempo que fosse. Adiei o início, procurei ajuda com amigos recentes (os velhos amigos me zoariam até a morte) e enfim, decidi encará-los mesmo assim. O resultado? Me deparei com uma dificuldade desproporcionalmente acima da média de tudo o que eu havia visto na minha vida em um deles, enquanto no outro, embora eu esteja me desempenhando relativamente bem, eu aprendi a olhar de uma outra forma para todos os meus desafios.
Essa capacidade de aprender rápido alguma coisa, talvez se devesse ao meu interesse em determinadas coisas, o que fazia com que eu buscasse por crescimento. Não se tratava propriamente de uma qualidade minha, era só determinação. Enquanto o fato de subestimar os desafios estava sendo meu maior defeito. Subestimar um desafio me dava preguiça de continuar aprimorando, me tirava o interesse, e isso se tornou a maior dificuldade que eu poderia ter.
Agora, com a consciência de que eu não sou nenhum “escolhido” e que eu tenho, na verdade, um terrível defeito, estou tentando enxergar novamente os desafios que deixei pra trás e as dificuldades que me fizeram desistir deles. Não estou dizendo que com isso vou retomar tudo o que comecei e abandonei no meio do caminho, mas redefinir minhas prioridades e dar o máximo de mim naquilo que eu perceber que realmente quero, sem medo e sem subestimar as dificuldades.
Atualmente tenho alguns desafios pela frente, em alguns acredito estar indo bem, em outros nem tanto, mas é a respeito dessa determinação que eu estou escrevendo, dessa determinação que surgiu com o esclarecimento, essa coisa bem pessoal, algo sobre superar um desafio pra poder encarar um desafio mais difícil.

No fim das contas, acho que sou mesmo infantil a ponto de me motivar para a vida com coisas correspondentes aos elementos do RPG. E eu tenho achado isso um máximo...

terça-feira, 23 de julho de 2013

Eu sou feito de Espadas

“Minhas memórias não são e nem nunca foram muito claras, mas lembro-me com certa clareza dos últimos momentos de meu pai. Seu corpo totalmente atravessado por armas. Espadas, lanças, forcados, todo tipo de arma que pudesse cortar ou perfurar o faziam em seu corpo. Pernas, braços, todo o peito e o abdômen atravessados por lâminas de todo o tipo e seu semblante era o de alguém orgulhoso, talvez pelos seus feitos, talvez pelos seus ensinamentos. Eu nunca irei saber ao certo.
I am the bone of my sword
Meu pai simboliza toda a minha família, e todo o contato que tive com ele pode ser resumido em treino. Décadas, ou até mesmo séculos de treino. Estudo das artes arcanas, disciplina, determinação, concentração, esforço físico e mental, tradição, técnica. Ele me mostrou todo o tipo de magia que pode existir no mundo, mas me ensinou a magia mais árdua. A magia de espadas. Ao preço de suor e sangue, eu deveria aprender a criar espadas instantaneamente. Armas sem orgulho, eu deveria criar armas que pudessem ser descartáveis, só deveria criar, com velocidade, com perfeição.
Stell is my body and the fire is my blood
Aprendi truques para alterar minha velocidade, algumas armadilhas mágicas, coisa que qualquer iniciado pode fazer, mas definitivamente, eu me aprimorei na arte de fazer armas. Espadas, lanças, correntes. Tudo se tornou fácil demais depois que o treino se tornou rotina.
I have created over a thousand blades
Mas o verdadeiro treinamento estava começando agora. Targrel me desafiava dia após dia, hora após hora, minuto após minuto, em combate, até que eu desmaiasse. Lutando, o tempo foi passando, e não conheci mais ninguém. Minha vida era lutar, dar o máximo de mim, criar cada vez mais lâminas em menos tempo. Resistir à morte, era esse o meu treinamento atual.
Unknown to death
Nor known to life
Com o passar do tempo parecendo cada vez menos real, perdi a noção dos anos, o
 que fez com que eu esquecesse também de minha idade, da idade da vila. Na verdade, esqueci de mim, esqueci da vila, esqueci de tudo, e todo esse vazio que foi crescendo dentro de mim eu transformava em armas. Não tinha mais motivos pelos quais lutar, não tinha mais motivos pelos quais querer nada a não ser me aprimorar na arte da luta e da criação espontânea de armas. Eu não era alguém com armas, eu havia me tornado uma arma.


Have withstood pain to create many weapons
Acertei o meu pai. Devo ter lhe feito algum corte superficial, quase invisível, mas o cortei. Eu vi o sangue na minha espada. Essa tinha sido a primeira vez, e antes que eu o golpeasse novamente ele me disse algumas palavras. Disse que eu estava pronto finalmente. Que eu deveria voltar a focar meu treinamento em disciplina e conhecimento, que eu deveria começar a exercitar a minha mente e começar a julgar pelo que eu deveria lutar. E por último me fez uma pergunta. Ele perguntou se eu seria capaz de abandonar todo o conhecimento que eu tinha e todo o treinamento pelo qual eu havia passado e eu lhe respondi prontamente que sim.
Com um largo sorriso no rosto ele me disse para largar tudo e ir viver na vila, como se jamais tivesse o conhecido. Me pediu para esquecer de tudo.
Yet, those hands will never hold anything
Sem céu e sem chão, pé ante pé fui até a vila. Não conseguia sentir sequer tristeza, pois havia esquecido dos meus sentimentos durante os anos que se passavam. Se um dia eu treinei disciplina, foi para conseguir fazer o que havia me pedido. Esquecer de tudo. E assim o fiz, pois durou tanto tempo que não faço ideia do tempo que passou desde que parti para a vila de novo.
Mas numa certa manhã, a vila amanhece alvoroçada, em choque. Targrel estava ajoelhado no centro da praça, da forma como me lembro dele até hoje, com o semblante orgulhoso, e infinitas armas atravessando-lhe.
So as I pray

Para mim, esta foi a última lição, pois agora eu tenho o conhecimento, a técnica, a disciplina, a concentração, a velocidade, sei julgar pelo que lutar e sei o que eu sou. Eu sou feito de espadas.”

Inspirado descaradamente no personagem "Archer" (Emiya Shirou heróico) do anime Fate.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O Guardião de Nortland


- Pai – puxando a roupa do pai tentando chamar a atenção, o pequeno garoto – pai, quem é aquele velho no topo da montanha?
- Aquele filho – largou um sorriso discreto – aquele é o nosso guardião, Alekeen Flamton, o guardião dessas terras frias.
- O que faz um guardião, pai? Ele só fica ali parado o tempo todo, todo dia...
- Sabe filho – após sentar-se, colocou a criança sentada sobre sua perna – todas as noites, quando adormece após sua mãe beijar sua testa, este homem permanece de pé, no topo do monte, observando atentamente, e as raras vezes em que ele não está lá, é porque seu trabalho ficou ainda mais duro.
- Ah pai, mas não parece ser difícil ficar parado sem fazer nada.
- Mas não é fazendo nada que este homem fica, filho. Ele está sempre observando a cidade toda, está varrendo cada canto da cidade com seu olhar em busca de algo que possa trazer perigo a alguém.
- Pai, mas nunca vi qualquer sinal de perigo aqui! – fez cara de bravo e encarou seu pai.
Olhou sorridente para seu filho, então – Meu filho, então é a aquele homem que deve agradecer a cada dia, pois o mundo é repleto de perigos e pessoas más, e se nos seus cinco anos de vida você jamais viu perigo algum, este homem tem feito um excelente trabalho.
- Nossa pai, não tinha pensado assim. – voltou a olhar o homem de trajes avermelhados no topo da montanha coberta de neve – todo mundo agradece a ele por isso?
- Infelizmente não, meu filho – abaixou a cabeça – porque ele já falhou antes... – voltou a olhar para o menino - ...e as pessoas só não esquecem as falhas.
- Como ele falhou? – olhou intrigado para seu pai.
- Não tinha a ver com ele, tinha a ver com todos, mas decidiram pôr sobre ele a responsabilidade.
- É uma história pai?
- Sempre é, meu filho, sempre é...
Desceu da perna de seu pai e sentou-se no chão a frente, esperando a história ser contada.
- Já faz muito tempo, ele era jovem e estava apenas treinando para ser o novo guardião pois o antigo estava velho. – virou a cabeça para a esquerda e apontou para a grande fonte – Vê aquela fonte?
- De onde todo mundo pega água?
- Sim, exatamente. – abaixou os braços e olhou para o menino – Sabe porque todos pegam água de lá?
- Porque é só lá que tem. O resto fica congelado por causa do frio.
- Isso mesmo – mostrou um largo semblante orgulhoso – Continuando a história, na época em que Alekeen estava em treinamento, soldados das terras quentes vieram procurando por um artefato e encasquetaram que estava na fonte. Eles tentaram quebrar a fonte. O guardião tentou os impedir. O velho guardião morreu tentando. Alekeen quase morreu tentando impedir também e a fonte foi quebrada. Os soldados foram embora com algo da fonte, e tempo depois, mesmo com a fonte consertada, a água dela ficava congelada como em qualquer outro lugar.
- Mas hoje ela solta água pai – interrompeu, a criança.
- Sim, filho, mas isso demorou muito tempo. Alekeen, o jovem guardião de treinamento incompleto foi designado a trazer de volta a “chama da fonte”, como chamaram, antes que o povo perecesse.
- E quando ele fracassou, se a fonte tá funcionando normal?
- Ele não conseguiu trazê-la a tempo. Quase todos morreram e não havia nem notícia dele. Os sobreviventes migraram para as terras quentes mais próximas e se entregaram à servidão. O povo sentiu-se humilhado. As histórias foram sendo passadas para as gerações até que um dia, muito tempo depois de várias gerações terem sucumbido, Alekeen veio avisar que a “chama da fonte” estava de volta nela e que o povo da neve poderia retornar à sua cidade. Poucos acreditaram e o seguiram, e aos poucos todos retornaram. Por diversas vezes, legiões de soldados das terras quentes retornaram a Nortland a fim de surrupiar a “chama da fonte”, mas Alekeen não era mais um guardião de treinamento incompleto. Alekeen não era sequer mortal. Entregou-se às chamas de corpo e alma e sua lealdade à sua função o preservou vivo. Sua idade soma agora mais de mil vidas. Ele não dorme, ele não come, ele não cansa. Raras vezes fala. Ele é agora, o guardião de Nortland.
- Nossa pai, que história bonita – virou o rosto ao velho no topo do monte – será que um dia posso me tornar um guardião também?
- Filho, ninguém reconhece o valor de um guardião, todos pensam assim como você pensava, que ele não faz nada...
- É pai, mas agora eu sei o que ele faz, e eu quero fazer também, mesmo que a gente não mereça. – olhou para o pai com os olhos cheios d’água – me conta como foi que ele conseguiu...
- Ah, meu filho, essa sim é uma história longa – sentou-se no chão esticando as pernas, tossiu duas vezes e pôs-se a falar – Imagine, filho, um jovem de dezessete anos, que nunca havia saído de Nortland, partir sozinho atrás de algo que sequer sabe o que é, que possivelmente estaria nas mãos de um exército. Bem, foi assim que começou...

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Um Nobre Andarilho

“Disseram que foi menos de um minuto a diferença de tempo entre meu nascimento e o nascimento de Cross, e já até ouvi dizer uma vez que quem nasceu primeiro fui eu, mas tanto faz, boatos não fazem a menor diferença diante dos fatos, e o que está registrado nos livros sagrados é fato, assim como nos foi ensinado.
Acredito mesmo que ele tenha sido muito superior a mim em diversas coisas, mas a diferença entre nós não era do tamanho que parecia. Ele sempre foi beneficiado em qualquer ensinamento, treinamento, presente.
Ainda assim, eu nunca o invejei, afinal, tratava-se do meu irmão, meu irmão mais velho, herdava o sobrenome dos guardiões da Chama Prateada há mais tempo que eu e por ele eu daria minha vida, se necessário, sem pensar.
Alassea se casara com ele.
Nada parecia injusto perante o poder de um nome tão influente na igreja até este ato de traição.
Haviam muitas mulheres no mundo. Mulheres poderosas, eu diria. Mas Terence, aquele maldito cardeal, queria me expor na frente de todos os meus ancestrais. Mostrar o primeiro Muller a demonstrar sentimentos. Mostrar que o nome da nossa família era uma espécie de mito, que nosso sangue não carregava nada de especial.
Pois em nome dos Muller, eu reneguei meu próprio nome, e em nome de Alassea, eu desertei da igreja. Entrei para o exército e fui treinar como um soldado. Red, o bastardo, eles me chamavam. Os pobres diabos sequer sabiam o que a palavra significava, e a preguiça de lidar com ignorantes me fazia ficar calado.
Meus documentos não carregavam mais o nome Muller, mas meu sangue ainda era da nobre família dos guardiões da Chama Prateada, portanto, logo fui visto dentro do exército, e mesmo sendo um recém plebeu, passei a gozar de certo mérito. Mérito conquistado à suor e sangue, pagando o preço do metal e da fé, abençoado pela Chama Prateada que me protegia para protegê-la.
Entretanto, o terrível sentimento que me orgulhei de nunca ter sentido parecia me perseguir, pois agora num posto privilegiado, forças sombrias maquinavam para exortar de mim as benesses conquistadas.
Terras e títulos nunca aproveitados foram de mim retirados sob acusações falsas, e durante a experiência terrível de experimentar o cortejo da morte no campo de batalha por incansáveis noites, pude ver a luz da Chama Prateada se revelar para mim na forma de um construto. Um soldado, criado para a batalha, treinado para desenvolver essa única atividade, veio me alertar sobre o motim. Perfuratron, se autointitulava, e eu só podia imaginar ser o mais forte sinal da minha protetora. Me contou todos os detalhes dos quais eu precisava saber e me ofereceu uma ajuda mais que fundamental para minha sobrevivência.
O construto pertencia a uma patente alta também, e isso poderia o causar problemas. Segui sozinho para Aerenal com o único intuito de me esconder, por hora, longe da fortaleza da Chama, longe do exército, longe da inveja. Eu precisava pensar.
Chegou até mim, através de uma meticulosa artimanha do destino, a informação de que Alassea havia falecido. Minha amada fizera a passagem devido ao parto de seu segundo filho de Cross, meu amado irmão. Meu mais novo sobrinho se chamara Rourke, o nome que havíamos escolhido juntos para nosso filho, que jamais nascera. A criança estava entregue aos cuidados de seu irmão mais velho, Neo e aos templários, pois Terence havia enviado Cross junto de uma pequena comitiva a uma verdadeira guerra em Karrnath.
O maldito enviou meu irmão para morrer. Mas porque queria isso? Que motivos teria Terence para acabar com os Muller dentro da fortaleza da Chama?

Soube que com o fim da guerra, os construtos foram libertos, e isso me fez pedir que a Chama Prateada guiasse meus passos até Perfuratron, para que eu pudesse acertar minha dívida de gratidão para com ele, e depois, talvez, tentar retornar à fortaleza da Chama exigir um pouco de justiça.”