quinta-feira, 25 de abril de 2013

O primeiro devaneio


Durante esses vinte e tantos anos da minha vida eu usei várias armas. Pistolas, revólveres, metralhadoras, granadas e tantas outras quantas possam imaginar. Já usei armas químicas, psicológicas, mas enfim, dentre todas essas armas, as que mais me seduziram sempre foram as de natureza medieval. Desde as manoplas de metal, às costumeiras espadas, arcos e flechas, e até mesmo as fantásticas magias foram sempre mais doces aos meus olhos.
Nem sempre foi por motivos nobres ou honrados que as empunhei, tampouco apenas para afirmar meu egoísmo ou proteger meu ego. Já salvei inocentes, me sacrifiquei heroicamente em prol da paz, curei as feridas de desconhecidos, mas também provoquei a guerra entre reis poderosos, sentenciei inocentes, fui leal e patife, honrado e cruel, e com certeza ainda experimentarei sensações mais específicas.
Há quem diga que todas essas experiências foram fictícias, e num primeiro momento seria até obrigado a concordar, mas em que consiste a essência de uma experiência afinal? Onde se situa a linha que divide o real do imaginário?
Posso piorar um pouco mais as coisas, se apontar os holofotes à tamanha incerteza que é a apreensão de dados empíricos proporcionada pelos nossos sentidos. A textura que você sente na pele nada mais é do que uma resposta à sua mente causada por um estímulo, da mesma forma que as cores captadas por seus olhos, e o som, por seus ouvidos. E se não há corpo algum ou outra coisa alguma qualquer, mas apenas um vasto e complexo facho de sensações lançadas à mente, interpretadas por ela mesma como sons, texturas, cores, odores e sabores?
O fato é que gostar do sabor do morango ou da sensação que minha mente tem do sabor do morango não tem diferença, e da mesma forma, arriscar a vida para salvar um desconhecido e apenas ter essa sensação, também não.
É obvio que nem sempre interpretamos personagens dos quais nos espelhamos, mas compreender a mente de um personagem a ponto de tomar as decisões por ele, pode nos fazer sentir o sabor desse morango, e nossa imaginação é que fará com que possamos apreciar o azedo ou a doçura dessa fruta...

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