Durante esses vinte e tantos anos da minha vida eu usei
várias armas. Pistolas, revólveres, metralhadoras, granadas e tantas outras
quantas possam imaginar. Já usei armas químicas, psicológicas, mas enfim,
dentre todas essas armas, as que mais me seduziram sempre foram as de natureza
medieval. Desde as manoplas de metal, às costumeiras espadas, arcos e flechas,
e até mesmo as fantásticas magias foram sempre mais doces aos meus olhos.
Nem sempre foi por motivos nobres ou honrados que as
empunhei, tampouco apenas para afirmar meu egoísmo ou proteger meu ego. Já
salvei inocentes, me sacrifiquei heroicamente em prol da paz, curei as feridas
de desconhecidos, mas também provoquei a guerra entre reis poderosos,
sentenciei inocentes, fui leal e patife, honrado e cruel, e com certeza ainda
experimentarei sensações mais específicas.
Há quem diga que todas essas experiências foram
fictícias, e num primeiro momento seria até obrigado a concordar, mas em que
consiste a essência de uma experiência afinal? Onde se situa a linha que divide
o real do imaginário?
Posso piorar um pouco mais as coisas, se apontar os
holofotes à tamanha incerteza que é a apreensão de dados empíricos
proporcionada pelos nossos sentidos. A textura que você sente na pele nada mais
é do que uma resposta à sua mente causada por um estímulo, da mesma forma que
as cores captadas por seus olhos, e o som, por seus ouvidos. E se não há corpo
algum ou outra coisa alguma qualquer, mas apenas um vasto e complexo facho de
sensações lançadas à mente, interpretadas por ela mesma como sons, texturas,
cores, odores e sabores?
O fato é que gostar do sabor do morango ou da sensação
que minha mente tem do sabor do morango não tem diferença, e da mesma forma,
arriscar a vida para salvar um desconhecido e apenas ter essa sensação, também
não.
É obvio que nem sempre interpretamos personagens dos
quais nos espelhamos, mas compreender a mente de um personagem a ponto de tomar
as decisões por ele, pode nos fazer sentir o sabor desse morango, e nossa
imaginação é que fará com que possamos apreciar o azedo ou a doçura dessa
fruta...